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Ciências Sociais
Aldous Huxley e o Estado Nascente por Sara Aleixo
Breve Abordagem Teórico-Prática da Obra A Ilha de Aldous Huxley
 
  por Sara Aleixo Lisboa, 22  de Julho de 1998
O ESTADO NASCENTE
ÍNDICE
A - ENQUADRAMENTO TEÓRICO B - APLICAÇÃO PRÁTICA

C - BIBLIOGRAFIA

Estado Nascente

Estado Nascente Hoje

A Ilha- Teatro em Estado Nascente

O Actor e a Encenação em Estado Nascente

Aldous Huxley e o Estado Nascente

Outras Obras do Autor

Citações de Apoio à Compreensão Conceptual do Trabalho

A ILHA - Adaptação e Dramatização

Obras Consultadas

Consultas na Internet

A - ENQUADRAMENTO TEÓRICO

O Estado Nascente

Na vida quotidiana, o indivíduo e a colectividade agem segundo as normas pré-estabelecidas pela sociedade, sem as questionarem. Há, no entanto, momentos em que essa estrutura é posta em causa, provocando uma descontinuidade social.

O estado nascente, segundo Francesco Alberoni, é um processo que se manifesta sempre que a sociedade humana se une na criação de novas estruturas de organização para a vida humana, numa fase de evolução desta última. O Homem começa por sentir que as plataformas sociais em que esteve inserido estão ultrapassadas em relação à sua actual capacidade de pensar, sentir e organizar toda a sua vida individual e social.

Este é um processo que tem sempre início no sujeito individual, que começa por experimentar o sentimento do novo como uma descoberta, uma conversão, uma mudança interior que se manifesta como metanoia, uma revelação, que provoca uma "brusca e profunda renovação da própria maneira de ser e de pensar" [1]

Esta nova percepção da realidade surge sob a forma de crises, de descontinuidade social, de verdadeira morte-renascimento que, após ter sido interiorizada pelo indivíduo, é partilhada com o outro, em forma de díade, como se passa no caso de enamoramento, ou na partilha com um grupo, como o grupo que se forma em torno de um chefe religioso ou político.

É desta forma, através da partilha desse sentimento, que se dá início ao movimento que criará a edificação de estruturas sociais, tendo em conta uma nova forma de vida em relação aos problemas específicos do momento, gerando assim a nova instituição.

Assim sendo, o estado nascente é um fenómeno que se observa com "incrível constância através do tempo e do espaço [2] ", na estrutura de qualquer movimento, qualquer que seja o seu contexto cultural, social e histórico. Por este motivo, vemos surgir inúmeras concepções do estado nascente, descritas de formas diferentes por diversos autores, em vários campos do conhecimento humano, podendo ser considerado a génese e o motor de todas as transformações históricas ao nível cultural, artísco, e relacional no grupo, família ou na sociedade.

Um exemplo bastante significativo é o do esquema proposto por Marx para o desenvolvimento das forças produtivas de uma sociedade, do qual resulta o processo histórico. Neste caso, o desenvolvimento faz surgir uma classe emergente que criará instituições mais adequadas às exigências do novo sistema produtivo, substituindo as classes precedentes, que nesse momento se tornaram um obstáculo à evolução.
Esta luta de classes representa o estado nascente no processo de evolução social, económica e histórica da sociedade humana e surge normalmente sob a forma de revolução. [3] >No Teatro podemos encontrar o estado nascente sob várias formas.

Comecemos pela própria origem do teatro. De facto, o primeiro estado nascente a observar-se seria a manifestação do mito sob a forma de ritos. Estes mitos são a expressão do sentimento colectivo em relação a objectos geradores de medo, como a morte ou os fenómenos então desconhecidos da natureza, sentimento esse canalizado em actividades transformadoras, neste caso, os ritos.
Neles, os indivíduos sentiam as forças que os invadiam como "provenientes de uma potência transcendental" [4] , partilhando uma experiência metafísica transposta para uma dimensão espacio-temporal alienada em relação à realidade. Esta experiência extraordinária, característica do estado nascente, é uma particularidade das fórmulas mágico-religiosas no geral, mantendo-se no teatro, já que delas é herdeiro.

Pensemos nos ritos ditirâmbicos, dos quais deriva a tragédia grega. Segundo Nietzsche [5] , o coro é composto por "seres metamorfoseados", é "uma comunidade de actores inconscientes" que partilham uma experiência metafísica, uma possessão característica da emoção dionisíaca e que estabelece a solidariedade, a nova linguagem comum entre o grupo, da qual resulta o movimento.
A tragédia grega nasce desses ritos e da tentativa de perpetuar os momentos extraordinários que, de outra maneira, apenas sobreviveriam na realidade como "recordação maravilhosa", como refere Durkheim [6] .

Esta é a primeira forma institucional do teatro, tendo em vista a partilha desse sentimento, a princípio, experimentado apenas pelo grupo em estado dionisíaco, em que cada indivíduo se desloca de si próprio para se unir com o "ser originário" [7] .

Nesta fase, são definidos um tempo e um espaço específicos para a actividade teatral e a peça é elaborada segundo determinadas regras, como as descritas na Poética de Aristóteles [8] . Mas é precisamente dessa organização que surge um novo estado nascente, que consistiu na partilha da experiência dionisíaca com o público.

Este fenómeno é notado e descrito por Aristóteles como catarse, a purgação de sentimentos como a piedade e o terror, suscitados pela tragédia. A catarse acontece por uma série de factores que aqui seriam a identificação do público com a acção decorrente na peça. Para isso a cena deveria basear-se na imitação da natureza, na verosimilhança.

Mas essa seria a expressão daquela época específica, com todas as suas particularidades culturais, sociais e históricas. Se há uma imitação da natureza e se é um facto que a natureza está em constante evolução, bem como a própria perspectiva humana face a essa natureza, então a imitação sofrerá constantes alterações também, deixando, por vezes, de ser imitação para exprimir tudo o que desconhecemos. É assim que surge uma nova forma de estado nascente em teatro, exprimindo a relação da arte com a sociedade e acompanhando os saltos evolutivos da última, ou seja, os seus próprios estados nascentes.

Cada movimento estético descoroa o precedente tendo como crença que aqueles preceitos que reclama são eternos, já que os sente em perfeita sincronicidade com todos os outros factores da época presente, não os percebendo como específicos daquele momento histórico.

Mas essa emoção que se sente, essa extraordinária sensação de estar a agir em perfeita sincronicidade com o que no presente é essencial, tendo em conta todas as experiências do passado e sintetizando-as de forma a realizar no futuro tudo aquilo que tinha sido entrevisto e que, por condicionalismos particulares do momento; não foi possível alcançar, essa emoção criadora, esse estado nascente, está em constante actuação e manifesta-se, da mesma forma, tanto no Homem, gerando uma nova cultura, como na natureza, produzindo novos seres vivos,- o élan vital, de que fala Bergson [9] .

É esta também a emoção de "certos espíritos excepcionais, os grandes artistas, os profetas, os chefes carismáticos, os cientistas" [10] , e acontecerá sempre que na sociedade humana e no mundo se percepcionar uma nova e mais avançada forma de vida.

Cada movimento faz, portanto, a reavaliação dos movimentos anteriores, adopta como seus os elementos que se mantêm essenciais, que continuam universais, e faz deles uma síntese, aproveitando-a para a sua nova linguagem, pois foi desse passado que o novo se tornou agora possível.
O novo movimento torna-se então "a autêntica realização daquilo que, nos movimentos anteriores, era algo de incompleto, parcial, unilateral" [11] . O antigo é desestruturado, reavaliado e reestruturado no novo.

Não é por acaso que Victor Hugo, no seu Prefácio de Cromwell, começa por analisar "as três idades da civilização" [12] , estabelecendo a relação entre poesia e sociedade e enquadrando os saltos evolutivos da primeira nos da última, antes de fazer a apresentação da nova escola artística de que era então percurssor, o Romantismo.

Também Piscator relembra que para cada época surgiu uma diferente concepção de teatro, adquirindo este último diferentes funções também. "A antiguidade via essencialmente a posição do homem face ao destino; a Idade Média a sua posição face a Deus; o racionalismo a sua posição face à natureza; o romantismo face às paixões. Mas uma época em que as relações no interior da colectividade, a revisão de todos os valores humanos, a perturbação de todas as relações sociais estão na ordem do dia, não pode ver o homem de outro modo a não ser na sua posição face à sociedade e aos problemas sociais do seu tempo; de outro modo senão como ser político" [13] - refere-se assim Piscator à importância do homem em cena para as diferentes épocas históricas, promovendo a função social do teatro para a sua própria época.

Poderíamos prolongar-nos por cada movimento artístico que em todos encontraríamos o fenómeno do estado nascente, mas deixemos que a constante renovação do teatro nos constate esse facto e, longe de me querer demorar numa reflexão mais profunda sobre História do Teatro ou Estética Teatral, preferirei fazer uma revisão do nosso próprio momento histórico, se isso for possível, tendo em conta a cada vez mais vertiginosa velocidade que atingiu a evolução humana, propondo, desta feita, uma nova hipótese de estado nascente para os nossos dias e, consequentemente, para o teatro de hoje.


 O Estado Nascente Hoje

Fizemos uma análise sucinta do estado nascente, da forma como se manifesta e, em particular, desta experiência no teatro. Vimos que seria possível apresentar um estudo da evolução do universo e da humanidade como uma sucessão de estados nascentes. Em que medida será então possível um estado nascente para os nossos dias?

Para respondermos a esta questão, teremos de fazer uma pequena revisão do passado histórico, para compreendermos a situação específica da evolução humana em que nos encontramos e de que forma teremos de reestruturar a nossa forma de viver e pensar, para melhor nos adaptarmos a esse processo.

Alberoni distinguiu três grandes saltos evolutivos da humanidade: o primeiro salto foi o desenvolvimento da palavra, favorecendo a comunicação; o segundo deu-se com a invenção da escrita, permitindo a transmissão do conhecimento acumulado pelas gerações precedentes; o terceiro salto aconteceu com a revolução industrial, referindo que a esta transformação material não se seguiu a devida transformação das capacidades intelectuais.

De facto, desde que rompeu com a realidade medieval, o Homem tem tentado encontrar uma nova e mais satisfatória visão do mundo e da vida, que se sobreponha à mentalidade religiosa. Tem esperado por uma verdadeira transformação da sua realidade não só física e social, mas principalmente espiritual.
No entanto, e apesar da ciência ter ajudado a desmistificar muitas das crenças incutidas pela Igreja, ela contribuiu essencialmente para o progresso tecnológico e para a difusão da ideia de um mundo como uma máquina previsível, obedecendo a determinadas leis naturais.

A humanidade mergulhava assim numa profunda transformação tecnológica, ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX, que resultaria num industrialismo frio, capaz de afectar o próprio equilíbrio do planeta.

Porém, em oposição a esta obsessão tecnológica, começavam a surgir vários movimentos que estão na base da transformação da maneira de pensar que se tem feito sentir, principalmente, desde meados do século.

Na década de 50, a ciência sofria uma revolução devida às descobertas da mecânica quântica e às teorias de Albert Einstein, fomentando a noção de um universo como "uma rede de energias onde o tempo pode acelerar ou abrandar, onde as mesmas partículas elementares podem aparecer em dois lugares ao mesmo tempo e onde o espaço é curvo e finito, mas, no entanto, interminável e talvez multidimensional" [14] .

A divulgação desta questão, revelando o mistério da vida, e os problemas ambientais, desvelando a ameaça de uma tecnologia e materialismo destrutivos, despertaram a grande massa de jovens estudantes daquela geração, fruto do baby boom do após guerra, que se insurgiu contra os valores da organização profissional e produtiva, numa atitude de anti-industrialismo, pacifismo e igualitarismo, fazendo surgir o interesse por novos significados espirituais, religiões e pontos de vista, em particular, os orientais, que se contrapunham a uma prática religiosa desprovida de sentido.

Paralelamente, as ciências humanas como a sociologia, a psiquiatria e a antropologia, bem como a física moderna, revelavam informações acerca da consciência e criatividade humanas. "Este acumular de pensamento, juntamente com a perspectiva proporcionada pelo Oriente, começou a cristalizar gradualmente naquilo a que, mais tarde, se chamou o Movimento do Potencial Humano, a crença emergente em que os seres humanos, presentemente, apenas estavam a actualizar uma porção diminuta do seu vasto potencial físico, psicológico e espiritual" [15] .

Nos últimos decénios, segundo Alberoni, o vertiginoso "crescimento (extracraniano) dos nossos orgãos sensoriais e da inteligência" [16] colmatou a desproporção em relação à evolução tecnológica.
"A rádio, a televisão, o microscópio electrónico, a monitorização computadorizada, a observação através dos satélites, constituem, no seu complexo, uma expansão dos nossos orgãos dos sentidos" [17] , continua Alberoni, que relaciona também o desenvolvimento das capacidades intelectuais ao aparecimento do computador.
Quanto a ele, "a superfície do planeta está a transformar-se numa única entidade viva que tem como sistema nervoso o conjunto dos cérebros humanos e das inteligências artificiais. É uma entidade biológico-tecnológica colectiva na qual os sujeitos são individuais" [18] .

Todas estas transformações vêm contribuindo para a construção de um novo pensamento que se baseia na compreensão de um mundo físico mais dinâmico, todo constituído por um mesmo material, que se mostra como o elemento comum subjacente a toda a matéria, a energia, através da qual as células de todos os organismos vivos comunicam, num fluxo de interacção que constitui o sistema de funcionamento de todo o Universo.

Este conceito de energia encontra-se profundamente enraizado na cultura oriental, onde é tida como "energia criativa pura e considerada nada menos do que a força impulsionadora da evolução" [19] .

O estado nascente confunde-se assim com a constante actualização do fluxo vital do universo, através de sucessivas "injecções" de energia que elevam a vida para níveis de vibração cada vez mais complexos [20] . O que se espera hoje é que a humanidade evolua conscientemente, compreendendo que, para além do desenvolvimento físico e psicológico, esta evolução está a processar-se a nível espiritual. Espera-se que dessa consciência toda a nossa realidade seja reorganizada, incidindo-se, primordialmente, na reavaliação dos processos de uma tecnologia sobredesenvolvida.

No entanto, as opiniões sobre o futuro da humanidade divergem. Existe, por um lado, um certo receio, principalmente, no que diz respeito aos efeitos catastróficos que o processo de industrialização teve sobre o ecossistema, resultando na formação de vários movimentos ecológicos. Por outro lado, mas também na sequência destes movimentos, surgiu um "novo objecto de amor colectivo que será o protagonista dos movimentos colectivos dos próximos decénios: o próprio planeta e a natureza, o bio do qual fazemos parte" [21] . Estamos num momento particularmente receptivo para uma desestruturação/reestruturação da nossa realidade, pois a "pré-condição para qualquer actividade humana" [22] está em risco.

Todas as pré-condições para um novo estado nascente estão em curso. Resta agora fundirmos as nossas consciências individuais num novo objectivo comum.

James Redfield fala de um "céu na terra", em que a cultura humana evoluirá para a compreensão da essência espiritual da beleza do mundo natural, promovendo a preservação da natureza e eliminação das actividades económicas que ameacem destruir essa fonte de energia.
A reprodução será voluntariamente limitada, para a prevenção do excesso de população, o que contribuirá para que todos usufruam de uma vida próxima dos "locais sagrados"(espaços verdes) e, ao mesmo tempo, a curta distância dos centros urbanos de "tecnologia verde", que providenciarão a satisfação das necessidades de alimentos, vestuário e transportes.
A vida basear-se-á numa "economia espiritual", em que o dinheiro será considerado uma outra forma de energia que se dá em troca de "verdade espiritual", sendo, por fim, eliminado, automatizando-se a produção de bens e democratizando-se o planeta. Todos trabalharão para este bem comum, compreendendo as profissões como um processo de crescimento pessoal, que poderão ser substituídas ao longo da vida, consoante o estádio de evolução de cada um [23] .

Este projecto surge no seguimento de uma mudança evolutiva do Homem, que já se faz sentir. No decurso de investigações das capacidades e aptidões do corpo humano, tornaram-se cada vez mais presentes no Homem capacidades paranormais que, se desenvolvidas por um grande número de pessoas, "criariam um novo tipo de vida no planeta, transcendendo a vida tal como a conhecemos" [24] .

Michael Murphy distinguiu doze atributos que caracterizam este nível emergente de desenvolvimento:

1. Percepções extraordinárias, apreensão da beleza sobrenatural dos objectos familiares, clarividência voluntária e contacto com entidades ou acontecimentos que são inacessíveis aos sentidos normais.

2. Uma consciência somática e uma auto-regulação excepcionais.

3. Extraordinárias capacidades de comunicar.

4. Vitalidade superabundante.

5. Extraordinárias capacidades de movimento.

6. Extraordinárias capacidades de alterar o ambiente.

7. Alegria que existe por si mesma.

8. Ideias intelectuais fervilhantes.

9. Vontade supra-normal

10. Personalidade que simultaneamente transcende e preenche a nossa noção comum do eu, ao mesmo tempo que revela a nossa unidade fundamental com os outros.

11. Amor que revela uma unidade fundamental.

12. Alterações nas estruturas corporais, dos estados e dos processos que servem de base às experiências e capacidades acima referidas [25] .

Estes processos são a consequência de uma elevação dos níveis de energia que provocarão, nas pessoas que os experimentam, estados de leveza física e espiritual, fazendo-os parecer invisíveis às pessoas que vibram a um nível inferior.

"[...] Algo, para além do ser comum, nos influencia e enche de energia e o desenvolvimento de várias capacidades mentais, físicas e intuitivas "projecta um futuro em que os seres humanos podem tornar real uma vida extraordinária na terra" [26] .

James Redfield, no seu livro, A Profecia Celestina, descreve nove revelações, baseadas num antigo manuscrito, que definem e possibilitam a realização dessa nova forma de vida e de uma sociedade renovada. Elas baseiam-se, fundamentalmente, na reavaliação do nosso processo individual de evolução, das relações interpessoais e do mecanismo de funcionamento do universo, do qual fazemos parte e com o qual interagimos.

A primeira revelação relata a consciência das coincidências que experimentamos nas nossas vidas como uma orientação para as mesmas, e refere o aparecimento de uma "massa crítica" com um número cada vez maior de pessoas a adquirirem essa consciência;
a segunda revelação é relativa à consciência da nossa natureza essencialmente espiritual;
a terceira revelação chama a atenção para o facto do universo ser pura energia e, por isso, poder responder às nossas intenções;
a quarta revelação relaciona os conflitos humanos com uma competição pela energia, cuja sensação de falta nos faz sentir inseguros;
a quinta revelação explica a ligação interior à energia universal;
a sexta revelação explica o facto dessa ligação nos poder libertar das nossas "cenas de controlo", ou seja, a forma como tentamos controlar a energia dos outros para nos sentirmos mais seguros;
a sétima revelação ensina a forma como, ao fazermos perguntas concretas acerca das nossas vidas, o universo nos responde;
a oitava revelação incita à reavaliação das nossas relações, tendo em conta os factores acima descritos, e o problema da co-dependência afectiva, que significa a nossa tentativa de compensar a falta da energia universal ligando-nos à energia dos outros;
a nona revelação integra estas revelações numa nova forma de encarar a vida e a natureza, na perspectiva de uma civilização mais humanizada.

A Ilha - Teatro em Estado Nascente

Pala, a "ilha proibida", é a descrição dessa nova sociedade, tal como a vê Aldous Huxley. Aí, funde-se o melhor de todos os mundos já realizados dentro das várias culturas e os de potencialidades ainda não realizadas, num misto de budismo com novas teorias científicas, biológicas e éticas.

A medicina conjuga todos os conhecimentos sobre a anatomia, a bioquímica, a psicologia, e o espírito e a sua ligação à fonte de vida, resultando numa resposta completa das causas e efeitos das doenças e dos acidentes, nos seus lados físico e psicológico.

A sexualidade é vista como "um meio psicofísico de alcançar um fim transcendente" [27] e é ensinada na escola sob a forma do maituna, ou seja, o ioga do amor. Toda a educação é uma exposição bastante concreta de problemas como a ecologia, as relações interpessoais e a gestão das próprias emoções.

O trabalho faz também parte da educação e é incentivada a variedade de profissões para que toda a gente aprenda "acerca das coisas, das técnicas e das organizações, acerca de todos os tipos de pessoas e da sua maneira de pensar [28] ".

A religião é encarada como uma forma de auto conhecimento, na qual os deuses perdem o carácter omnipotente. "Os deuses são todos forjados pelo Homem e somos nós quem lhes puxa os cordelinhos e lhes confere, com esse acto, o direito de puxarem pelos nossos" [29] .

Há, por isso, um sentido de espiritualidade antes ligado à natureza e à força do próprio eu. "Se as preces são ouvidas é porque, neste nosso singularíssimo mundo psicofísico, as ideias, quando nelas concentramos o nosso espírito, possuem uma tendência para a concretização" [30] .

O alpinismo, como manifestação da omnipresença da morte e instabilidade da vida, e o moksha, uma substância extraída de cogumelos e que provoca visões e um acréscimo de consciência, são experiências de iniciação à autoconsciência e à revelação do mundo.

A pintura, essencialmente paisagística, não é subordinada a alguns artistas conceituados, mas sim a expressão de todos os que queiram partilhar uma experiência mais elevada que se converte em meditação para os que a contemplam.

Os habitantes desta ilha maravilhosa são constantemente despertados pelos minas, os pássaros que repetem frases como "atenção" e "aqui e neste momento", lembrando a importância de agir no momento presente.

Os problemas que impedem a concentração e a compenetração completa do ser são trabalhados através de uma psicologia bastante particular: os assuntos perturbantes são relatados e repetidos diversas vezes até que o "paciente" consiga perceber a insignificância desse episódio em todo o contexto da sua vida, e todas as pessoas que impliquem sentimentos negativos, são distorcidas num jogo mental até adquirirem um aspecto cómico e serem espezinhadas na "dança de rakshasi" [31] .

Este romance é uma antevisão, algo utópica, do que poderia atingir a humanidade, se guiada pelo estado nascente proposto neste trabalho. Daqui surgiu a ideia da sua adaptação, reforçando a ideia de um teatro que estabelecesse a relação do público com a sociedade, servindo como despertador espiritual.

As cenas adaptadas deste romance foram escolhidas, também por este motivo. São três sequências que representam diálogos entre duas personagens principais: William Farnaby e Susila Macphail.

William Farnaby é um jornalista inglês que naufraga em Pala, a ilha onde todos os jornalistas tentam chegar sem grandes resultados. Aqui, Will tentará aproveitar a "feliz coincidência" para cumprir o seu intuito de investigar o petróleo existente na ilha e a possibilidade de futuras negociações com Inglaterra. Susila Macphail é uma nativa da ilha, que ensina psicologia na escola primária, sendo também responsável pelo apoio psicológico e orientação espiritual dos pacientes em casos graves.

Durante estas cenas o público terá algum contacto com o tipo de mentalidade dos naturais de Pala, assim como assistirá à consequente transformação das personagens: Will, muda porque aprende a conhecer-se melhor e a ultrapassar os conflitos com o seu passado, Susila, porque aprende que, apesar de todos os conselhos sábios que aprendem na ilha, o passado nunca se poderá alterar e é sempre difícil lidar com ele.

Will representa a sociedade actual, o progresso e a subsequente desumanização das relações interpessoais, Susila representa a possibilidade de uma cura para essa situação, sabendo, no entanto, que apesar de grande parte do nosso sofrimento ser inflingido por nós próprios e apesar de termos algum controlo sobre as nossas vidas, há circunstâncias sobre as quais não podemos agir, sendo, por isso, fundamental viver no presente, para menos termos de lamentar no futuro.

Um facto curioso, é o de o autor ter chamado Will à personagem principal do romance. Will significa desejo, determinação, vontade, energia e entusiasmo, num sentido lato representa um poder de escolha, ou uma acção ou intenção deliberadas que resultam do exercício desse poder. Não quererá Huxley dizer que o futuro apenas depende daquilo que estivermos dispostos a fazer por ele?

O Actor e a Encenação em Estado Nascente

Toda a evolução que se manifestou na tecnologia, na sociedade e no pensamento humano, ao longo deste século, manifestou-se, igualmente, no teatro.

Se a utilização da luz eléctrica se revelou essencial para a evolução de vários aspectos do teatro, para além dos técnicos (a electricidade possibilitou o uso de palcos rotativos e outras inovações que contribuiram para novas ideias plásticas e de encenação), também as revoluções nas ciências e nas disciplinas humanas foram, gradualmente, criando uma nova estrutura para o conhecimento relativo às artes dramáticas, contribuindo para o aparecimento de novas tendências teatrais.

O crescente interesse de vários encenadores e outros homens de teatro, pela psicologia, pela anatomia, pelo estudo do movimento e do gesto e do seu carácter cultural, foi exercendo a força de uma verdadeira revolução em teatro, sem que as próprias pessoas que dela fizeram parte se apercebessem do seu trabalho colectivo.

Stanislavski, começava a direccionar o seu trabalho para a criação de um "corpo-mente orgânico" do actor, que deveria interpretar a sua personagem igualmente como um ser completo em que, para cada intenção psicológica corresponde uma acção física.

Craig defendia o teatro como a arte do movimento no espaço, fomentando o simbolismo, juntamente com Appia, e inspirando-se na commedia dell'arte, no teatro de marionetas e no teatro oriental, para criar a noção de um actor que é uma supermarioneta, que domina perfeitamente a técnica e as leis do movimento, criando, em palco, um "corpo vivo", em estado de extâse.

Meyerhold, baseando-se na psicologia americana das emoções e na reflexologia soviética pavloviana, vai estudar o acto psíquico intrusado num processo nervoso e toda a acção como uma resposta a um estímulo. Observando, em paralelo, o trabalho de corpo de um acrobata, vai desenvolver a noção de biomecânica do actor, que dependerá do seu domínio da energia no tempo e no espaço, no domínio dos reflexos, do equilíbrio e do ritmo, e consciência exacta do seu centro de gravidade. "O trabalho do actor é o conhecimento de si próprio no espaço". Toda a peça vai, assim, resultar num jogo de energia com o seu equivalente psíquico, que tem como fim estimular a actividade mental do público.

Artaud leva este sentido do jogo de energia, entre os actores e o público, ao extremo, isto é, faz da energia em teatro a sua "linguagem nua", a qual deverá "agir directa e profundamente sobre a sensibilidade, através dos orgãos".

O que sobressai, na maior parte destes casos, é a procura do actor em "corpo vivo", em "estado de graça". Fala-se de uma energia no actor, que não define apenas a manifestação da sua força muscular e nervosa, característica em todos os corpos vivos, mas da forma como essa energia é modelada conscientemente, de forma a ajudá-lo a expressar, de forma mais clara, as emoções e acções da personagem, comunicando também de forma mais eficaz com o público.

Este conceito é particularmente evidenciado nas disciplinas orientais.

Em Kung-Fu, designa a disciplina, a capacidade ou habilidade que um esforço continuado exige, para ser dominado; é também aquilo que faz vibrar o actor, que fá-lo parecer presente e que significa uma superação de qualquer aspecto técnico.

Nos diferentes tipos de teatro japonês, Nô, Kyogen e Kabuki, designa-se de koshi, as energias usadas pelo actor, ou ki-hai, a consonância profunda entre o espírito e o corpo.

Na Índia, no teatro de Bali, fala-se de chikará, a força ou poder, conseguidos através do exercício regular, de taksú, a inspiração celeste que se apodera da bailarina independentemente da sua vontade, ou de bay, o vento ou a respiração que definem a presença do actor.

Em antropologia teatral fala-se de animus e de anima, que significam duas forças diferentes, opostas, mas que coexistem no mesmo organismo. Algo como as forças que distinguem a onda que bate na areia, da onda que volta para o mar.

O actor, através do variar desta energia, dilata a sua presença física, cria um "corpo em vida", sendo aquilo que aparenta ser um trabalho de corpo e de voz, um trabalho sobre algo invisível.

Para poder modelar essa energia, e, já que não pode olhar com os próprios olhos para si próprio, o actor criará "segundos olhos", desenvolverá um sexto sentido, que não é mais do que a atenção em relação ao que se passa em si e à sua volta. Esta consciência desperta uma tensão na coluna vertebral, como "um impulso a estar preparado", todo o corpo fica em constante actividade, disposto a actuar de forma precisa.

Para a apresentação das cenas em palco, decidimos trabalhar sobre estas questões, não só por uma questão de representação, mas porque o próprio texto assim o exige. O cenário conterá elementos que acompanharão os significados mais profundos do texto. A cor e a intensidade da luz, em cada cena, serão a manifestação do ambiente que o texto pretende criar, contendo também um carácter plástico, como os restantes elementos cénicos e o próprio corpo dos actores.

A expressividade do corpo dos actores não significa, no entanto, uma dança, como Meyerhold ou Artaud pretendiam.

Pretender-se-á, simplesmente, criar uma liberdade de acção e uma imagem harmoniosa, que tocará na sensibilidade estética do público. O mesmo acontecerá com a música.

No conjunto, a peça deverá transportar o público para um estado nascente, que o possa clarificar, se não por revelar qualquer novo aspecto do mundo, pelo menos por promover um estado de espírito bastante mais harmonioso e aberto a novas ideias.

Reconheço o pretensiosismo que acompanha este trabalho, e a dificuldade em atingir aquilo que todos os encenadores e actores tentam com o seu trabalho, ou seja, a sincronicidade entre aquilo que pensam dever mostrar ao público e aquilo que o público deseja.

Espero, no entanto, suscitar a imaginação de alguns de vós, no sentido de insuflar o teatro de um novo fluxo de vida, de criar um novo interesse que mova as multidões e que lhes ensine que a vida e o mundo são fruto do nosso esforço, individual e colectivo.

Estamos perante um momento crítico, em que devemos decidir em que direcção queremos ir: para a destruição total ou para um céu na terra.

E isso não é Deus quem decide, somos nós.

Aldous Huxley e o Estado Nascente

Aldous Huxley nasceu no dia 26 de Julho de 1894, no seio de uma família pertencente à elite intelectual da classe dominante de Inglaterra, da altura. A sua mãe era irmã de Humphrey Ward, a romancista, sobrinha de Matthew Arnold, o poeta, e neta de Thomas Arnold, um famoso director de uma escola de râguebi. O seu avô era Thomas Henry Huxley, um filósofo da teoria da evolução e do Darwinismo.

Tendo nascido e vivido sempre em contacto com essa classe social, Huxley, sentia a opressão do autoritarismo e das classes instituídas, o que revela nas suas obras e, principalmente, em O Admirável Mundo Novo, em que acentua esse sentimento, abordando uma sociedade biológica e quimicamente organizada e psicologicamente condicionada, onde os habitantes desconhecem a liberdade, em troca da felicidade proporcionada por pílulas mágicas.

Outro acontecimento da sua vida que marcou a sua obra, foi a morte da mãe, com um cancro, quando ele ainda tinha catorze anos. A sua obra ficou para sempre caracterizada por um sentido de efemeridade da felicidade humana.

Aos desasseis anos, enquanto estudava em Eton, uma doença nos olhos quase o cegou por completo.

Em 1916, publicou o seu primeiro livro. Nos seus primeiros tempos, Huxley era um escritor sério, idealista e romântico, tendo escrito poesia simbolista e ensaios críticos. Mas, com o tempo e descobrindo as preocupações que afectavam a sociedade da época (o crescimento da população e falta de recursos e fontes de alimentação na terra, para além de outros problemas ambientais e políticos) foi revelando um cinismo neo-Romântico (do qual O Admirável Mundo Novo é também exemplo).

Em 1919, casa-se com Maria Nys, uma belga, com a qual teve um filho, em 1920. O casal dividiu os seus primeiros anos entre Londres e a Europa, passando os anos de 1925 e 1926, em viagens pelo mundo, conhecendo a Índia e os Estados Unidos, para onde finalmente se mudam em 1937.

Nesta altura, vai para Hollywood, onde escreve alguns guiões para cinema, dos quais uma adaptação do romance de Jane Austen, Orgulho e Preconceito, protagonizada pelo jovem Laurence Olivier. O resto da sua vida foi passada na Califórnia. Maria Huxley morreu em 1955, e no ano seguinte, Huxley casou-se com Laura Archera.

Isto significou também uma nova fase na sua vida, pensamento e literatura. Por esta altura, Aldous Huxley começou a fazer experiências com drogas psicadélicas, como a mescalina e o LSD, substâncias alucinogéneas e expansoras da mente, resultando daqui vários trabalhos analíticos e livros como As Portas da Percepção e O Céu e o Inferno.

         

Estas obras representam as suas ideias sobre a alteração das percepções dos sentidos e da consciência que se experimentam pelo uso destas drogas, relacionando essas experiências com a história cultural, a criação de mitos, a origem das religiões e o processo criativo implicado na arte.

Para ele, esta drogas dariam a possibilidade de uma experiência visionária, que é comum e espontânea nos místicos, santos e grandes artistas, às pessoas que não têm esse dom, isto, juntamente com outras práticas, como a meditação, o isolamento, a hipnose ou auto hipnose, e alguns exercícios de yoga.

Aquilo que Huxley definiu da experiência com essas drogas psicadélicas, encontra-se muito próximo da experiência de estado nascente de que tenho vindo a falar, ao longo deste trabalho. Huxley fala de uma "visão beatífica", de um ser abanado das raízes da percepção quotidiana, sendo-nos dada a revelação de um mundo interior e exterior como ele é apreendido directa e incondicionalmente, sem a distorção dos conceitos que nos foram incutidos.

Huxley baseia-se na teoria da memória e da percepção dos sentidos de Bergson, que sugere que as funções do cérebro e do sistema nervoso, são essencialmente eliminativas e não produtivas. Isto significa que cada pessoa tem a capacidade de recordar tudo o que lhe aconteceu e, ao mesmo tempo, de se aperceber de tudo o que se passa em todo o sítio do universo inteiro, tendo, o cérebro e o sistema nervoso, a função de seleccionar a parte que, dessa informação, é realmente útil à nossa sobrevivência neste planeta.

Assim, aquilo que chamamos de "este mundo" são as realidades que cada pessoa apreende e, o "outro mundo", o que podemos por vezes experimentar da manifestação de toda a informação do universo, à qual Huxley intitula de "mente alargada".

Para Huxley, portanto, o estado nascente, ou, no seu caso, a experiência com as drogas psicadélicas ou a emoção característica do artista, é a passagem directa do conhecimento da "mente alargada" até à nossa consciência, sem a influência redutora do ego e cérebro. "É um conhecimento do significado intrínseco de todo o existente".

A Ilha foi o seu último livro, escrito em 1962.

Este livro é o resultado de todo o pensamento que recolheu durante a sua vida inteira. Para escrevê-lo, fez uma profunda pesquisa de àreas tão distintas como "a história grega, antropologia polinésia, traduções de textos budistas escritos em sânscrito e chinês, material científico sobre farmacologia, neurofisiologia, psicologia e educação, juntamente com romances, poemas, ensaios críticos, livros de viagens, comentários políticos e conversas com todos os tipos de pessoas, desde filósofos a actrizes, de doentes mentais em hospitais psiquiátricos a homens poderosos conduzindo Rolls-Royces..."

. A Ilha é uma utopia que define os seus valores em relação ao que deveria ser o mundo e as relações entre as pessoas. Significa, também, o antídoto para O Admirável Mundo Novo, que descreve o mundo horrível em que poderemos viver no futuro.

Estes dois romances são, por isso, o dilema que vivemos no nosso tempo, estando apenas separados pela nossa própria vontade.

Este romance deu origem a um grupo com o mesmo nome, fundado em 1990, na Califórnia, que tem como fim a criação de uma nova sociedade baseada nas ideias inovadoras de Aldous Huxley.

Este grupo reconhece que, desde que o romance foi escrito, uma série de inovações, que Huxley reivindicava, já se realizaram, dos quais evidenciaram:

·          a convergência dos computadores com os media e a realidade virtual, de forma a criar uma nova forma de unir as pessoas do planeta;

·          formas experimentais de relações humanas e comunidades, que servirão de modelo para futuras formas de vida e sociedade;

·          a evolução da inteligência, a extensão de vida e a nanotecnologia;

·          os novos paradigmas científicos das matemáticas e físicas que se começaram a fundir com o que se julgava místico e espiritual;

·          a jovem cultura psicadélica que criou uma música, arte e cultura alternativas e cujos rituais cresceram do conceito do tecno-xamanismo (a fusão do antigo com o novo).

A única coisa que penso ter falhado no estudo de Aldous Huxley, no sentido de atingir esse estado, é o facto de não ser essencial o uso de uma droga ou qualquer outro artifício para se encontrar esse sentimento. No entanto, não é um erro tão grave assim- a decomposição da adrenalina, substância existente no nosso organismo, da qual resulta o adenocromo, causa a maior parte dos sintomas sentidos por intoxicação daquelas drogas, o que significa que o nosso próprio corpo pode, espontâneamente, produzir aquelas sensações.

É, portanto, possível e natural produzir essa "visão beatífica", ou estado nascente, espontaneamente. A Profecia Celestina seria talvez o guia para a criação desse estado e um complemento para realizarmos a utopia que A Ilha nos apresenta.

Aldous Huxley morreu em 22 de Novembro de 1963, no mesmo dia em que o presidente Kennedy foi assassinado.

O cancro na garganta, de que sofria, causa normalmente cenas dramáticas na fase terminal. Huxley, no entanto, morreu serenamente. Nessa manhã, estando já tão fraco que não podia falar, escreveu num papel "LSD- tenta por via intramuscular- 100mmg". A sua esposa, contrariando as ordens do médico, aplicou ela própria a injecção.

Outras Obras do Autor

·         Limbo
(1920, short stories)
·         Crome Yellow
(1921, novel)
·         Antic Hay
(1923, novel)
·         Those Barren Leaves
(1923, novel)
·         Jesting Pilate
(1926, travel book)
·         Point Counter Point
(1928, novel)
·         Brave New World
(1931, novel, science fiction)
·         Beyond the Mexique Bay
(1934, travel book)
·         Eyeless in Gaza
(1936, novel)
·         After Many a Summer Dies a Swan
(1939, novel)
·         The Art of Seeing
(1942, non-fiction... Bates method of 'visual re-education)
·         Grey Eminence
(19??, historical study)
·         The Devils of Loudun
(19??, historical study)
·         Ape and Essence
(1948, novel, science fiction...Harper, New York, US... postapocalyptic)
·         The Doors of Perception
(1954, non-fiction...Harper, New York, US... mescaline, psychedelics)
·         Heaven and Hell
(195?, non-fiction)
·         Brave New World Revisited
(1959, non-fiction)
·         Collected Essays
(1960, non-fiction, essays)
·         On Art and Artists
(1961, non-fiction, essays)
·         The Perrenial Philosophy
(19??, ?)
·         The Doors of Perception and Heaven and Hell
(1962, non-fiction, omnibus edition...Harper Colophon, New York, US... mescaline, psychedelics)
·         Island
(1962, novel... )
·         Literature and Science
(1963, non-fiction)
·         Moksha: Writings on Psychedelics and the Visionary Experience (1931-1963)
(19??, non-fiction, anthology... psychedelics)
·         Ends and Means
(19??, ?)

Citações de Apoio à Compreensão Conceptual do Trabalho

*ALBERONI, Francesco. A Génese, Bertrand Editora, Lisboa, 1990.

 "A nível do indivíduo, o estado nascente é uma experiência extraordinária que interrompe a trama da vida quotidiana e lhe imprime um novo curso. É a descoberta da própria vocação mais profunda, do próprio destino. É uma chamada ou uma revelação. Mas pode ser igualmente o nascimento de um amor, uma conversão religiosa ou política, uma inspiração artística irresistível, uma decisão irrevogável. O estado nascente é uma experiência cognoscitiva. É um conhecer, um ver, um descobrir do que estava escondido, um revelar do que já existia. Mas é também uma experiência emocional extraordinária, perturbadora, entusiasmante e apaixonante.[...] É uma subversão, uma reviravolta, uma nova forma de olhar o mundo e a si próprio." [p.11]

 "O estado nascente é uma descontinuidade social provocada por uma experiência de morte e renascimento a nível individual.[...] No estado nascente o ser humano descobre a sua plasticidade, experimenta a sua incrível maleabilidade. Sente-se, durante um milagroso instante, liberto da maneira de ser em que se manteve calado, aprisionado. Sente-se livre de realizar todas as suas potencialidades." [p.37]

 "É neste processo tumultuoso que surgem os movimentos. Surgem como reacções individuais e colectivas ao estado de desordem que se veio a criar, à tensão, à estagnação, ao sentido de injustiça, mas igualmente como objectivo vital e necessidade de encontrar um sentido para a vida e para a acção." [p.71]

 "Loucura e estado nascente não se confundem, já o vimos, mas os mecanismos da loucura podem interferir na experiência metafísica e levar à negação da contingência, ou seja, à declaração de que o existente é ilusório e o pensamento tudo pode." [p.139]

 "Há só um tipo de estado nascente. Há inúmeros tipos e formas de instituições." [p.248]

 "[...] na experiência do estado nascente, existe muito forte a impressão de uma potência que nos anima do interior, de uma potência infinitamente maior do que nós e que, no entanto, se nos apresenta como a nossa própria essência." [p.343]

 "Se se deve admitir uma ânsia criadora original e divina da natureza, da qual depende a evolução e, depois, o progresso humano, é necessário tomar como sua manifestação o estado nascente nos indivíduos verdadeiramente criativos. Já o dissemos e repetimo-lo: o estado nascente não é mais do que a invenção, o reestruturar de um campo, a solução de um problema, o abrir de um novo caminho. Se acontece numa pessoa mediana, resolverá um problema modesto e não conduzirá muito além disso. [...] Bem diferente é o estado nascente dos grandes espíritos criadores, o momento mágico da descoberta que revolucionará não apenas a sua vida, mas o mundo. E isto é válido para todos os campos em que sopra a 'loucura divina'. As grandes criações de Dante ou de Shakespeare, de Miguel Ângelo, de Leonardo, de Copérnico, de Galileu, de Einstein ou de Freud." [p.346]

*BORIE, Monique-ROUGEMENT, Martine-SCHERER, Jacques. Estética Teatral, Textos de Platão a Brecht, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1996.

 "[...] o nosso objectivo não é apenas criar a vida de um espírito humano, mas também 'exprimi-la sob uma forma estética e artística'.[...] damos uma importância particular à influência do espírito sobre o corpo.[...] Deveis exercitar ao mesmo tempo o vosso aparelho psíquico, que vos permitirá criar a vida interior da vossa personagem, e o vosso aparelho físico, que exprimirá os seus sentimentos com precisão."

[Stanislavski: A Formação do Actor (1926), p.374]

 "A criação do actor resumindo-se à criação de formas plásticas no espaço, implica que lhe seja necessário estudar a mecânica do seu corpo. Tal é-lhe necessário porque toda a manifestação de uma força, em particular num organismo vivo, está submetida a uma lei mecânica única (e a criação pelo actor de formas plásticas no espaço cénico é, evidentemente, a manifestação de uma força do organismo humano)."

[Meyerhold: O Actor e a Biomecânica (1922), p.403]

 "O drama moderno deve exprimir o grande sonho futurista que se liberta da nossa vida contemporânea exasperada pelas velocidades terrestres, marítimas e aéreas e dominada pelo vapor e pela electricidade. É preciso introduzir sobre a cena o reino da Máquina , os grandes calafrios revolucionários que agitam as multidões, as novas correntes de ideias e as grandes descobertas científicas que transformaram completamente a nossa sensibilidade e a nossa mentalidade de homens do século vinte."

[Marinetti: Manifesto dos Autores Dramáticos Futuristas (1911), p.410-411]

 "Tal poderia ser o sentido último de toda a arte: mostrar ao homem como todo o real não é mais que aparência que se evola diante da existência humana autêntica. Sim, todo o real não é mais que erro porquanto a verdade é a espiritualidade."

[Kornfeld: O Homem Espiritual e o Homem Psicológico (1918), p.418]

* REDFIELD, James. A Profecia Celestina, Editorial Notícias, Lisboa, 1997

 "Segundo me disse o padre, trata-se de uma espécie de renascimento da consciência, que ocorrerá de forma muito lenta. Embora espiritual, não é um movimento de natureza religiosa. Estamos a descobrir algo de novo sobre a vida neste planeta, sobre o significado das nossas existências, e, segundo o padre, esse conhecimento alterará impressionantemente a cultura humana." [p.14]

 "A História não é só a evolução da tecnologia; é a evolução do pensamento. Ao tentarmos compreender a realidade das pessoas que viveram antes de nós, compreenderemos por que razão vemos o mundo da maneira como o fazemos e qual é o nosso contributo para um maior progresso. Podemos saber com precisão em que ponto aparecemos, por assim dizer, no desenvolvimento mais amplo da civilização e ficarmos a saber para onde vamos." [p.32]

 "Há mil anos, vivíamos num mundo onde Deus e a espiritualidade humana estavam claramente definidos. E tinhamos perdido tudo isso, ou melhor, haviamos decidido que a história não se reduzia a isso. Por conseguinte, tinhamos enviado exploradores à descoberta da verdadeira realidade, com a missão de nos virem informar sobre o que tinham descoberto, mas, como haviam demorado demasiado a regressar, começáramos a preocupar-nos com uma finalidade nova e material, a de nos instalarmos no mundo, a de vivermos com mais conforto.[...] Quase podia visualizar o impulso da Idade Moderna a perder progressivamente a sua força, à medida que nos aproximávamos do fim do milénio. Uma obsessão com quatro séculos estava em vias de chegar ao fim. Tinhamos criado os meios da segurança material, e agora pareciamos prontos- em posição, diria- para descobrir o porquê de tudo o que fizéramos." [p.42-43]

 "Toda a obra da vida de Einstein foi mostrar que o que precepcionamos como matéria sólida é, na sua maior parte, espaço vazio atravessado por energia.[...] Por outras palavras, o material básico do universo, na sua essência, parece ser constituído por uma espécie de energia pura, que se mostra permeável às expectativas humanas[...]" [p.58]

 "[...] em que medida o universo físico, como um todo- uma vez que é feito da mesma energia básica -, reage às nossas expectativas? Até que ponto as nossas expectativas criam tudo o que nos acontece?[...] É possível que ele [o universo] funcione, basicamente, de uma maneira mecânica, mas que reaja subtilmente à energia mental que projectamos sobre ele." [p.78]

 "Quando visualizamos- dizia ele-, cada inspiração traz-nos energia e enche-nos, como se fossemos um balão; ficamos com mais energia e sentimo-nos muito mais leves, como se estivessemos a flutuar." [p.187]

 "O seu corpo vibra a um certo nível. Se deixar que esse nível desça, o seu corpo sofre isso. É nisso que consiste a relação entre stress e doença. Amar mantém o nível de energia elevado. Mantém-nos saudáveis. É tão importante como isso." [p.211]

 "Á medida que Julia falava, fui notando que o seu rosto e o seu corpo se modificavam. O seu corpo estava a adquirir as características do seu campo de energia. Os seus traços ainda eram nítidos e distintos, mas já não eram músculos e pele o que eu via. Dava a sensação de se estar a transformar em pura luz, uma luz vinda de dentro." [p.293]

 "Quanto mais beleza virmos, mais evoluiremos. Quanto mais evoluirmos, mais alto será o nosso nível de vibração. A Nona Revelação mostra-nos, em última análise, que o aumento da percepção e da vibração nos abrirá caminho para um Céu que já está à nossa frente. Só que ainda não o vemos.

 Sempre que duvidarmos do nosso próprio caminho ou perdermos de vista este processo devemos recordar aquilo para que estamos a evoluir, em que consiste viver. Alcançar o Céu na Terra é a razão por que aqui estamos. E agora sabemos como se pode fazer isso... como se fará." [p.295]

* REDFIELD, James-ADRIENNE, Carol. A Profecia Celestina, Um Guia Experimental, Editorial Notícias, Lisboa, 1995

 "O nosso planeta foi revelado sob um novo prisma, não como um mundo estático ou cíclico, mas sim como uma esfera onde se têm registado transformações após transformações das espécies, ao longo de várias centenas de anos. Este avanço extraordinário leva a crer que os seres humanos se podem desenvolver ainda mais. A evolução até hoje é um gesto inevitável e supremo, que aponta para um misterioso futuro das formas vivas [...] Possuímos capacidades de transformação [...] Não é exagerado pensar que, apesar das nossas muitas limitações, talvez nos espere ainda mais progresso, talvez mesmo um novo tipo de evolução.

 [Michael Murphy, The Future of the Body, p.42]

 "Quando despertada, a energia sobe impetuosamente pela medula-espinal, activando os centros de energia do corpo e libertando diversas sensações emocionais e físicas." [p.129]

 "A alma e a mente perderam instantaneamente o seu vínculo físico e fluíram dali para fora [...] A minha noção de identidade deixou de estar estreitamente limitada por um corpo e passou a abarcar os átomos do ambiente circundante [...] uma glória que não parava de crescer dentro de mim começou a envolver cidades, continentes, a terra, os sistemas solar e estelar."

[Paramahansa Yogananda, Autobiography of a Yogi, p.133]

 "[...] [Buda] ensinou que as instituições sociais co-surgem connosco. Não são estruturas independentes e separadas das nossas vidas, quais cortinas de fundo da nossa peça de teatro pessoal, em frente das quais podemos exibir as nossas virtudes de coragem e compaixão [...] Como formas institucionalizadas da nossa ignorância, dos nossos medos e da nossa cobiça, adquirem a sua própria dinâmica. O eu e a sociedade são ambos reais e mutuamente causativos."

[Joanna Macy, World as Lover, World as Self, p.151]

* REDFIELD, James. A Décima Revelação, Editorial Notícias, Lisboa, 1996

 "A Décima Revelação prende-se com a compreensão de toda esta consciência- a percepção de coincidências misteriosas, a consciência espiritual cada vez maior em relação à Terra, os desaparecimentos da Nona Revelação- tudo a partir da perspectiva mais elevada da outra dimensão, de modo a podermos compreender por que razão esta transformação está a ocorrer e a participarmos mais plenamente." [p.18]

*ABEL, Lionel. Metateatro, Uma Visão Nova da Forma Dramática, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1968

 "Defini o metateatro como repousando sobre dois postulados básicos: 1) o mundo é um palco, e 2) a vida é um sonho." [p.141]

 "A tragédia transmite de longe o sentido mais forte da realidade do mundo. O metateatro transmite de longe o sentido mais forte de que o mundo é uma projecção da consciência humana.

 A tragédia florifica a estrutura do mundo, que supostamente reflete em sua própria forma. O metateatro glorifica a falta de vontade da imaginação para considerar qualquer imagem do mundo como final.

 A tragédia torna a existência humana mais vívida por deixar transparecer a sua vulnerabilidade face o destino. O metateatro torna a existência humana mais semelhante ao sonho por nos mostrar que o destino pode ser superado.

 A tragédia pretende ser mediadora entre o mundo e o homem. A tragédia deseja estar dos dois lados. O metateatro pressupõe que não existe mundo senão aquele criado pela luta humana, pela imaginação humana.

 A tragédia não pode operar sem o pressuposto de uma ordem que seja um valor último. Para o metateatro, a ordem é alguma coisa que está sempre a ser improvisada pelos homens. [...]

 Não devemos parar de lamentar a 'morte' da tragédia e dar o justo valor à forma dramática que a civilização ocidental- e exclusivamente essa civilização- foi capaz de criar e aperfeiçoar?" [p.150-151]

 *HUXLEY, Aldous. A Ilha, Edição "Livros do Brasil", 1962, Lisboa.

"-Este pássaro é teu?- perguntou Will.Ela abanou a cabeça.-Os minas são como a luz eléctrica- disse.- não pertencem a ninguém.-Porque é que eles dizem essas coisas?-Porque os ensinaram a dizê-las- respondeu ela pacientemente. "Que burro!", era o que o seu tom parecia significar.- Mas porque é que lhes ensinaram a dizer essas coisas? Porque é que dizem "atenção"? E "aqui e neste momento"?-Bem...- ela ia procurando as palavras mais próprias para dar a entender àquele desconhecido imbecil o que era, afinal, evidente.- É o que a gente anda sempre a esquecer, não é assim? Quero dizer: esquecemo-nos constantemente de dar atenção às coisas que acontecem. E isso é o mesmo que não estar aqui e neste momento." [p.20]"Ninguém tem necessidade de ir para qualquer outro lado. Todos nós já lá estamos; só falta sabermos que de facto assim é. Se eu soubesse realmente quem sou, deixaria de proceder como a pessoa que julgo ser e, se eu deixasse de proceder como a pessoa que suponho ser, saberia quem sou." [p.48]"O patriotismo não basta. Nem qualquer outra coisa. Não basta a ciência, não basta a política nem a economia nem o amor, nem o dever nem a acção, por muito desinteressada que seja, nem a contemplação, embora sublime. Só tudo, mas absolutamente tudo é que poderá bastar." [p.167]

B - APLICAÇÃO PRÁTICA

A ILHA

Adaptação e dramatização de excertos do romance de Aldous Huxley, A Ilha, considerados essenciais para a compreensão dos conceitos apresentados no enquadramento teórico.

I

Susila- Como se sente?

Will- Sinto-me infeliz. Sinto-me infeliz.

Susila- Chamo-me Susila Macphail. Sou a mãe de Mary Sarojini.

Will- Muito prazer em conhecê-la.

Susila- Ouvi dizer que é de Inglaterra.

Will-Que me importa a mim donde sou! Nem para onde vou. Vim do Inferno e vou para o Inferno.

Susila- Eu estive em Inglaterra. Estive lá a estudar. Em psicologia tive uma colega cuja família vivia em Wells. Convidou-me para passar em sua casa um mês das férias grandes. Conhece Wells? Nessa altura, gostava imenso de passear à beira da água e de me pôr a olhar para a catedral. E de pensar em Dugald, imaginando-o na praia, à sombra das palmeiras, em Dugald a dar-me a primeira lição sobre a maneira de trepar às rochas. "Estás presa à corda.  Não há possibilidade alguma de caíres". Que lindo que era! Que maravilha!Uma sensação extraordinária de paz. Chanti, Chanti, Chanti.
A espécie de paz que ultrapassa o nosso entendimento. Se fechar os olhos...se eu fechar os olhos vejo tudo com a maior nitidez. A igreja, enorme, muito mais alta do que as árvores gigantes que crescem em torno do palácio do bispo. Estou a ver a relva verde, a água e a luz dourada do sol. E ouça: até estou a ouvir os sinos. Os sinos e as gralhas. As gralhas na torre...Não está a ouvir as gralhas?(pausa) E havia nuvens brancas e por entre elas, um céu de um azul tão pálido, tão fino e tão maravilhosamente suave! E os cisnes...os cisnes...tão perto de mim neste momento que quase lhes posso tocar, e contudo, tão longínquos...a milhas de distância! Lá longe, nessa água aveludada, deslocando-se como por artes mágicas, suavemente, majestosamente...

Will- Flutuando sem esforço...flutuando sem esforço.

Susila- Eu tinha o costume de me sentar nesse sítio, sentava-me ali, a olhar, a olhar e, daí a pouco, eu própria tinha a sensação de flutuar. De flutuar com os cisnes, sobre aquela superfície aveludada, por entre a escuridão da terra e a doçura pálida do céu, lá em cima. A flutuar, entre o aqui e o além, entre o então e o agora. A flutuar à superfície, entre o real e o imaginário. A flutuar...a flutuar como uma ave branca sobre as àguas.
A flutuar no grande rio da vida, que corre de mansinho, tão de mansinho que se diria estar a dormir. Um rio a dormir...mas correndo irresistivelmente. A vida correndo, silenciosamente, irresistivelmente, para uma vida mais cheia, para uma paz vibrante de vida. E é para dentro dessa paz que você vai agora a deslizar, a deslizar, nesse rio silencioso e macio que dorme e é, no entanto, irresistivel, irresistível porque se encontra a dormir. E vou flutuando com ele. Apenas deixando-me ir, ao longo do rio adormecido, irresistivelmente, para dentro da unidade e reconciliação.(pausa). Durma. Durma, no rio adormecido. E, por cima do rio, no céu pálido, há nuvens brancas e enormes. E, quando você as contempla, começa a flutuar em direcção a elas. Sim. Começa a flutuar em direcção a elas e, agora, o rio é um rio aéreo, um rio invisível que o transporta, que o eleva cada vez a maior altura. Deixa sem esforço a planície sufocante, a caminho da frescura das montanhas. Quando respira, como o ar lhe parece fresco! Fresco, puro, saturado de vida! Frescura, frescura e sono... Frescura, que o penetrará de uma nova vida. Mergulhe através do sono na reconciliação, na unidade, até penetrar numa paz cheia de vida. (sai)


II

Susila- Não há dúvida que tem muito melhor aspecto do que quando aqui estive da última vez.

Will- Graças ao dr. Macphail. E também graças a alguém que- tenho cá as minhas suspeitas- anda por aí a exercer ilegalmente a medicina. Que diabo é que me fez ontem à tarde?

Susila- (sorri)O senhor é que se tratou a si próprio. Eu limitei-me a carregar nos "botões".

Will- Que botões?

Susila- O da memória, o da imaginação...

Will- E bastou isso para me pôr em transe hipnótico?

Susila- Se assim lhe quiser chamar...

Will- Mas que é que se verificou, afinal?

Susila- Bem, para começar, estabelecemos um certo contacto, não é verdade?

Will- Sem dúvida. E, no entanto, creio que, nessas alturas, nem sequer para si olhei.

Susila- E como é que poderia olhar? se tinha partido para férias?

Will- Ou não me teriam antes atirado para a viagem?

Susila- Atirado? Não. Digamos antes que o acompanharam na hora da partida, que o ajudaram.(pausa) Já alguma vez tentou fazer um trabalho qualquer, com uma criança a perturbá-lo?(pausa, Will ri-se ao evocar uma imagem) Coitadinho do pequeno! Tão bem intencionado e ansioso por ajudar!

Will- Pois sim, mas depois era tinta na carpete, marcas de dedos sujos nas paredes...

Susila- De maneira que, por fim, você resolveu desembaraçar-se dele. "Põe-te a andar, rapazinho! Vai brincar para o jardim."(pausa)

Will- Então?

Susila- Não percebeu?(Will abana a cabeça) O que é que acontece quando você adoece e sente dores? Quem é que se encarrega de o curar? É você? 

Will- Pois quem há de ser?

Susila- É você? Você? A pessoa que sofre a dor e se mortifica e pensa no pecado e no dinheiro e no futuro! É esse o seu eu capaz de fazer o que é necessário fazer?

Will- Ah!, já sei onde quer chegar.

Susila-Até que enfim!

Will- Manda-me brincar para o jardim, a fim de que a gente crescida possa trabalhar à vontade.

Susila- Exactamente.

Will- É esse o processo padrão em Pala?

Susila- Sim. Na sua região, os médicos libertam-se das crianças, envenenando-as com barbitúricos. Nós fazêmo-lo, falando-lhes em catedrais e em gralhas. (a voz torna-se mais doce) Falamos-lhes de nuvens brancas a flutuar no céu, de cisnes brancos, deslizando no rio da vida, rio calmo e irresistível, no meio das sombras...

Will- Chega, chega. Não quero nada disso! É que já conheço as suas manhas.

Susila- Manhas? Estava simplesmente a explicar-lhe como procedi. Se quiser ensino-o a carregar nos próprios botões. Ensinamos isso em todas as escolas elementares. Autodeterminação, ou seja, Controlo do Destino.

Will-Controlo do Destino?

Susila- Não, não somos tão idiotas como pensa. Sabemos que apenas parte do nosso destino pode ser controlado.

Will- E controlam-no carregando em botões?

Susila- Carregando nos nossos botões. Em seguida visualizamos o que gostaríamos que acontecesse.

Will- E acontece realmente?

Susila- Em muitos casos acontece.

Will-Coisa fácil! (pausa, longo silêncio)

Susila- Que tem?

Will- Nada. Porque pergunta isso?

Susila- Porque não tem lá grande habilidade para esconder o que sente. Estava a pensar em qualquer coisa que o entristeceu.

Will- Tem uns olhos muito penetrantes.(desvia o olhar, ficando pensativo durante algum tempo) O dr. Macphail contou-me qualquer coisa... a respeito do que aconteceu a seu marido.

Susila- Vai fazer na quarta-feira quatro meses.(pausa) Duas pessoas, duas individualidades separadas, mas que tinham conseguido qualquer coisa semelhante a uma segunda criação! E, de repente, eis que metade dessa criatura é amputada enquanto a outra metade não morre.

Will- Mas o que se torna realmente horrível é ver a outra pessoa morrer por nossa culpa!

Susila- Você era casado?

Will- Fui casado durante doze anos. Até à primavera passada.

Susila- E ela morreu?

Will- Morreu de desastre.

Susila- De desastre? Nesse caso como é que a culpa foi sua?

Will- O desastre aconteceu porque... bem, porque eu fiz o mal que não queria fazer. E, nesse dia, é que a minha maldade atingiu o ponto culminante. O sofrimento que isso lhe causou perturbou-a, fez-lhe perder a capacidade de atenção e eu deixei-a sair de carro; deixei-a avançar no choque que a havia de matar.

Susila- E você gostava dela?( Will, hesitante, abana a cabeça) E havia alguém que lhe interessasse mais?

Will- Alguém que me não poderia interessar menos.

Susila- E esse foi o mal que você fez e não queria fazer?

Will- Fi-lo e continuei a praticá-lo até que matei a mulher que devia ter amado e não amei. Continuei a fazê-lo, mesmo depois de lhe ter causado a morte, mesmo depois de começar a odiar-me a mim próprio por esse facto e de odiar igualmente aquela que me forçava a praticá-lo.

Susila-  E ela obrigava-o a praticar o mal por possuir o tipo de corpo que lhe convinha, não é assim?

Will- (acena afirmativamente, pausa) Sabe o que é uma pessoa sentir que é nada nem mesmo o seu próprio ser?

Susila- (acena afirmativamente) Acontece isso, por vezes, quando uma pessoa se encontra prestes a descobrir que tudo, incluindo o próprio ser, é muito mais real do que alguma vez imaginou. 

Will- E uma pessoa também aprende a esquecer?

Susila- Não se trata de esquecer. O que uma pessoa tem de aprender é a maneira como se deve lembrar das coisas, sem que, por isso, se encontre dominada pelo passado. Não é fácil.

Will- Não, não é fácil. Quer ajudar-me nesse ponto?

Susila-Combinado.

III

Susila- J. S. Bach. A música mais próxima do silêncio, e, no entanto capaz de atingir o espírito mais impenetrável.(pausa) O que é que está a ouvir?

Will- Estou a ouvir o que vejo e a ver o que ouço.

Susila- E como é que descreveria essas sensações?

Will- Acho que se parece... com a criação. Mas não uma criação em tempo limitado. É uma criação perpétua, que não acaba nunca.

Susila- Criação perpétua a partir de não sei quê em parte alguma, que se vai transformando em qualquer coisa, em qualquer parte, não é assim?

Will- É isso mesmo

Susila- Está a fazer progressos.(pausa, ouvem a música)

Will-  É um sofrimento infinito! E nem podemos falar. Nem sequer podemos gritar!

Susila- (ajoelha-se frente a Will e pousa as suas mãos no seu rosto, Escorrendo os dedos desde a testa até aos olhos, em ligeiras massagens) Atenção! Atenção a isto. A isto. A este momento. Ao seu rosto entre as minhas duas mãos.

Will- Atenção a quê?

Susila- A isto. A isto. Aqui e neste momento. E não se trata de nada romântico como o sofrimento. Trata-se de uma sensação de unhas a enterrarem-se. E, ainda que se tratasse de coisa muito pior, nunca se poderia prolongar sempre ou até ao infinito. Nada dura eternamente; nada chega ao infinito.(descansa os dedos nos olhos de Will) Dê atenção(sussurro)

Will- Parece uma corrente eléctrica!

Susila- Mas, felizmente, o fio não transmite mensagens. Tudo se limita a uma pessoa estabelecer um contacto e, no acto de tocar é igualmente tocada. Comunicação completa mas sem que se comunique coisa alguma. Tudo se resume a uma permuta de vida e mais nada.(pausa) Já pensou, Will, que, durante todas estas eternidades, nem uma vez sequer olhou para mim? Tem medo do que poderá ver?(pausa, Will abana a cabeça) Agora é tempo de abrir os olhos e de ver como é realmente um ser humano.(as pontas dos dedos deslocaram-se das pálpebras para a testa, deslizaram até às fontes e até aos extremos dos maxilares, acabando por ir segurar as mãos de Will)

Will-(abre os olhos) Santo Deus!

Susila- Serei assim tão repelente?

Will- Você é reconhecivelmente você e eu sou reconhecivelmente eu, embora sejamos agora completamente diferentes. Você e eu, assinados pelo pintor Rembrandt, mas por um Rembrandt cem mil vezes mais Rembrandt do que o autêntico. Você é incrivelmente bela! Mas ainda que fosse incrivelmente feia, isso não teria importância nenhuma; ainda assim, você continuaria a ser um Rembrandt, mas cinco mil vezes mais Rembrandt. Linda, linda, linda. E, no entanto, não me apetece dormir consigo. Não, não é verdade. Gostaria de dormir consigo. Gostaria mesmo muito. Mas se isso não acontecer nunca, também não terá importância. Continuarei a amá-la. Mas vejamos esse seu rosto extraordinário.É qualquer coisa que se renova a cada momento. Maria com as espadas a trespassar-lhe o peito e Circe e Ninon de Lenclos e agora alguém que se assemelha a Juliana de Norwich ou a Catarina de Génova. Serás tu realmente todas elas?

Susila-Todas e mais uma idiota. Mais uma mãe preocupada e não muito eficiente. Mais um pedacito da pequena pretensiosa e sonhadora dos meus tempos de criança. E ainda mais: potencialmente, a velha agonizante que do espelho me contemplou da última vez que eu e Dugald  tomámos o moksha. E, depois, Dugald olhou para o espelho e viu o aspecto que ele próprio teria daí a quarenta anos. E em menos de um mês estava morto.(fecha os olhos, pausa) Uma pessoa regressa ao passado com tanta facilidade. E também demasiadas vezes.

Will-(toca nos lábios de Susila) Atenção!

Susila- (longa pausa, ergue a mão e aperta com força o dedo de Will contra o seu lábio) Obrigada!(abre os olhos)

Will- Porque é que me agradeces? Foste tu que me ensinaste o que eu devia fazer.

Susila- E agora és tu que tens de ensinar a tua professora.(levanta-se, segurando Will, que a segue, pela mão, param em frente ao público) Agora que finalmente reconheceste a minha existência, dou-te licença de olhares à tua vontade.

Will- (emocionado) Porque é que uma pessoa há-de sentir necessidade de chorar quando se sente grata? Blake estava certo, "a gratidão é o próprio céu".

Susila- E é tanto mais celeste quanto é certo que é o céu na terra e não o céu no céu.

C - BIBLIOGRAFIA

Obras Consultadas

  • ALBERONI, Francesco. A Génese, Bertrand Editora, Lisboa, 1990.
  • BORIE, Monique-ROUGEMENT, Martine-SCHERER, Jacques. Estética Teatral, Textos de Platão a Brecht, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1996.
  • REDFIELD, James. A Profecia Celestina, Editorial Notícias, Lisboa, 1997
  • REDFIELD, James-ADRIENNE, Carol. A Profecia Celestina, Um Guia Experimental, Editorial Notícias, Lisboa, 1995
  • REDFIELD, James. A Décima Revelação, Editorial Notícias, Lisboa, 1996
  • ABEL, Lionel. Metateatro, Uma Visão Nova da Forma Dramática, Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1968
  • HUXLEY, Aldous. A Ilha, Edição "Livros do Brasil", 1962, Lisboa.
  • Dossier da Disciplina de Antropologia Teatral sob Direcção de George Stobbaerts.

Consultas na Internet

Pensamento

Poesia

Discursos

Rajá da Ilha

Encontro c/Timothy Leary

As Portas da Percepção

A Ilha

Timothy Leary

Fundação A Ilha

Bibliografia

Biografia


[1] Francesco Alberoni, Génese, Bertrand Editora, 1990, p. 39.

[2] Idem, p.15.

[3] K. Marx-F. Engels, A Ideologia Alemã, em F. Alberoni, Génese, p.25.

[4] F. Alberoni, Génese, p. 334.

[5] Nietzsche, A Origem da Tragédia, em Monique Borie-Martine de Rougement-Jacques Scherer, Estética Teatral, Textos de Platão a Brecht, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1996.

[6] E. Durkheim, Juízos de Valor e Juízos de Realidade, em F. Alberoni, Génese.

[7] Nietzsche, A Origem da Tragédia, em M. Borie-M. Rougement-J. Scherer, Estética Teatral, Textos de Platão a Brecht,  p. 348.

[8] Aristóteles, Poética, em M. Borie-M. Rougement-J. Scherer, Estética Teatral, Textos de Platão a Brecht.

[9] Henry Bergson, As Duas Nascentes da Moral e da Religião, em F. Alberoni, Génese, p. 345.

[10] F. Alberoni, Génese, p. 346.

[11] Idem, p. 215.

[12] Victor Hugo, Prefácio de Cromwell, em M.Borie-M. Rougement-J. Scherer, Estética Teatral, Textos de Platão a Brecht, p. 300.

[13] Piscator, O Teatro Político, em M. Borie-M.Rougement-J. Scherer, Estética Teatral, Textos de Platão a Brecht, p. 443.

[14] James Redfield-Carol Adrienne, A Profecia Celestina: Um Guia Experimental, Editorial Notícias, Lisboa, 1995, p. 40.

[15] James Redfield, A Décima Revelação, Editorial Notícias, Lisboa, 1996, p. 126.

[16] F. Alberoni, Génese, p. 575.

[17] Idem.

[18] Idem, p. 577.

[19] J. Redfield-C. Adrienne, A Profecia Celestina: Um Guia Experimental, p. 129.

[20] Ver em James Redfield, A Profecia Celestina, Editorial Notícias, Lisboa, 1997 (7ª edição),pp. 124-126.

[21] F. Alberoni, Génese, p. 565.

[22] Idem.

[23] J. Redfield, A Profecia Celestina, e  J. Redfield-C. Adrienne, A Profecia Celestina: Um Guia Experimental.

[24] J. Redfield-C. Adrienne, A Profecia Celestina: Um Guia Experimental, p. 153.

[25] Michael Murphy, The Future of the Body, em J. Redfield-C. Adrienne, A Profecia Celestina: Um Guia Experimental, p. 254.

[26] J. Redfield-C. Adrienne, A Profecia Celestina: Um Guia Experimental, p. 256.

[27] Aldous Huxley, A Ilha, Edição "Livros do Brasil", Lisboa, 1962, p. 188.

[28] Idem, p. 187.

[29] Idem, p. 152.

[30] Idem, p. 225.

[31] "Um rakshasi é uma espécie de demónio, muito grande e horrivelmente feio. É a personificação de todas as paixões más. A dança de rakshasi é um estratagema para levar as pessoas a libertarem-se de todos os vapores provocados pela cólera e pela frustração", Idem, p. 280.

 
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