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Dança - Performances

João Fiadeiro por Sara Aleixo 

Realizado por: Sara Aleixo

A Filosofia...

João Fiadeiro é um pensador mais do que um bailarino, é um criador mais do que um coreógrafo. O seu contributo para a dança é algo de subliminar, algo implícito que pode passar ao lado de muitos que criticam a sua ideia de que "a dança não passa (necessariamente) pelo corpo".

Mas essa ideia reside no facto de que, antes da expressão corporal, deve existir um sentido, uma razão, e por isso a sua dança é uma dança da razão. Razão no sentido de significar, de querer dizer algo de necessário, de essencial, porque nada pode ser feito ao acaso, tudo deve ser consciente e ter...uma razão de ser.

O seu trabalho gira em torno do eu, do self enquanto consciência de si, e desse espelho que é o outro. É um trabalho que procura uma fenomenologia do gesto ligado ao pensamento. Considero o seu trabalho como uma técnica, mais do que um estilo, porque toda a forma com que lida com o corpo se direcciona no sentido de prepará-lo para a interpretação.

O facto de usar a improvisação não exclui a existência de um fio condutor da composição. Ela (a improvisação) serve antes para eliminar qualquer condicionalismo técnico, pondo em evidência essas limitações e exigindo uma hiper-auto-consciência para as destruir.

Este processo baseia-se na clarificação da intenção, do objectivo, que se consegue através do conhecimento de si, da imagem de si, e da consciente manifestação do desejo, da motivação.

Esta relação entre o self e a consciência pode ser demonstrada no esquema que se segue.

1. O acidente (experiência transfiguradora do ser) transporta o ser para uma nova realidade,acompanhado pela consciência, sendo, no entanto, uma experiência transitória, ao que se segue um retorno à identidade primária.

O trabalho processa-se numa sequência constante de situações inesperadas, face às quais o ser é obrigado a tomar determinadas decisões, sendo que todas elas deverão ter um sentido relacionado com a construção do objecto final. Isto deixa-nos vários problemas: será necessário ter um objectivo, à partida, que se deverá manter até ao fim, o que é um problema, tratando-se de uma composição em tempo real; cada decisão tomada deve ser aceite e orientará a conduta do intérprete até ao fim, podendo tomar sempre um caminho completamente diferente, de cada vez que se trabalha um mesmo tema.

No entanto, é aqui que reside a dificuldade e o interesse neste tipo de processo. O que por vezes pode ser considerado como uma obra inacabada é assumida como tal e é por esse eterno risco que ela tem o seu valor, podendo assim ser considerada como uma técnica artística em constante evolução.

O problema é que cada vez menos a arte é usada no sentido de estimular a crítica, o questionamento, de provocar inquietações. Hoje em dia, os espectáculos de dança são aceites sem reservas, como um mero divertimento, um "objecto-espectáculo pronto a consumir". É preocupante a letargia em que estamos imersos, a forma despreocupada com que aceitamos as condições que nos impõem, o nosso espírito de "laisser faire, laisser passer". João Fiadeiro quer provocar ansiedades, questões, estados de espírito mais despertos e, por isso, é recusado, criticado, duvidado.

Quando se revela a verdade, sem dramatismos ou teatralidades supérfluos, ela incomoda , ela é tomada por vazia de significado, porque nos habituámos ao falso self como forma de manipularmos os outros, para os abranger no nosso mundo de interesses pessoais e os podermos controlar para satisfazermos a nossa vontade pessoal, a nossa ânsia pelo poder.

Falo em termos filosóficos porque é esse o sentido do trabalho de João Fiadeiro. A dança não tem necessariamente de passar pelo corpo porque o corpo é pensamento, porque o cérebro também faz parte do corpo e, por isso, eles são um só, apesar da nossa constante teimosia na cisão entre ambos.

O seu trabalho processa-se numa dimensão subliminar porque retorna às origens do corpo e da mente, da sua relação milenar, tentando redescobrir o verdadeiro sentido do movimento, e este está relacionado com o desvendar o véu da realidade, revelar a sua verdadeira essência, criando um estado de pensamento crítico, transformador. Porque a arte existe para nos confrontarmos com a realidade, para pensarmos nela, para evoluirmos através dessa confrontação e para a podermos mudar através dessa consciência.

A dança não passa necessariamente pelo corpo porque ela reside na razão, no sentido, na intenção, e todos estes existem no pensamento, sendo o corpo um veículo de transmissão, de expressão. Por isso, João Fiadeiro não negou o corpo à dança, mas retirou-a do corpo e devolveu-a ao seu devido lugar: o espaço total, o exterior e o interior.

O Trabalho...

O seu método de composição baseia-se num conceito de tempo-real, onde a coexistência de determinados factores num enquadramento espacio-temporal específico vai regular a utilização dos elementos de execução por parte do performer. Aqui são fundamentais o tempo que precede a acção (invisibilidade) -"espaço" interior onde são pensadas e tomadas as decisões; o tempo e o espaço em que a acção se torna visível (visibilidade); e o momento em que o espectador "lê" a acção (legibilidade), surgindo assim um conceito de "lesibilidade" que orienta a elaboração da composição.

Esse processo é cíclico porque o intérprete está constantemente a ser confrontado com um espaço exterior que lhe sugere determinadas emoções, às quais deve ser sensível, identificando e seleccionando as respostas adequadas a esse momento. A sua acção terá de ser guiada pelo seu próprio livre arbítrio, através da sua própria consciência, o que o coloca num território perigoso, arriscado, pois qualquer decisão orientará toda a performance para determinado caminho, ao qual não se pode fugir.

Esta procura interior, onde não existem pontos de referência (ou, pelo menos, não deveriam existir...), é duplamente inibidora e estimulante pois despe o intérprete de todo o "material" a que está habituado, obrigando-o a procurar um verdadeiro sentido para a acção. É uma procura da sinceridade, mas não num sentido poético, da sinceridade enquanto realidade, nem sempre apaixonante...

Nos seus solos, João Fiadeiro usa sempre todos os elementos de uma forma clara, definida, assumida. Enquanto conta a sua história, somos absorvidos pela sua entrega absoluta ao momento presente, ao seu verdadeiro sentir. Todos os materiais são válidos para si: a dança, o teatro, as artes plásticas, a música, todo o material humano é requisitado.

Por isso não pode ser simplesmente dança, mas também não pode deixar de sê-lo. É uma arte total, onde a mensagem é multiplicada nos vários elementos cénicos, é um cocktaill onde se encontram bocados de existencialismo, de pós-modernismo, de expressionismo e de nada, misturados com tudo.

O livre arbítrio de Sartre, o Tanztheater expressionista de Pina Bausch, o "teatro da crueldade" de Artaud, todos se revelam nesta espécie de "festival dos malditos" que João Fiadeiro encena. Mas que não se espere um ambiente soturno, intimista; pelo contrário, João Fiadeiro prefere o sarcasmo, a ironia. Nos seus quadros de humor negro, sentimo-nos constrangidos por uma vontade imensa de gargalhar ao mesmo tempo que nos envolve uma intensa angústia, provocada pela identificação dos temas realistas que nos propôe.

Os seus movimentos são um reflexo deste imaginário, onde se sente uma leveza e liberdade do corpo face à formalização do gesto, talvez influenciada por um conhecimento das técnicas ligadas às artes marciais, que promovem essa ideia de que o corpo não é uma matéria rígida, mas antes um sistema dinâmico de energia. Mas, ao mesmo tempo, encontramos no seu corpo a elegância clássica da forma, pelas linhas curvas que, por vezes, os seus gestos assumem.

Uma relação forte com os elementos teatrais, faz com que as suas obras contenham sempre essa linguagem, expressa tanto nos gestos quanto na própria utilização da palavra, dotada de uma sonoridade musical, que transmite quase sempre uma mensagem pessoal, dirigida directamente ao espectador. Essa comunicação presente em todos os espectáculos, quase infantil, é um apelo constante, que nos persegue quando abandonamos a sala de espectáculo.

Podemos mesmo não gostar do seu trabalho, mas ele intriga-nos, incomoda-nos, deixa marcas que nos acompanharão para sempre, porque nos tocou. É impossível ser-se indiferente a esse contacto.

É, principalmente, uma vontade de abanar alguns neurónios que teimam em manter-se inactivos, preguiçosos, enquanto há ainda tanto a fazer pelo mundo e pela humanidade. E é este o lugar da arte, é essa a sua função na evolução cultural, na evolução das mentalidades. É este o objectivo conseguido pelo seu trabalho e, por isso, há-que agradecer o seu contributo para a dança, a arte e a cultura, não só em Portugal, mas em todos os lugares por onde tem exercido essa sua "missão".

O Percurso...

João Fiadeiro nasceu em Paris, em 1965, fixando-se em Portugal em 1974, após uma infância itinerante.

Praticou natação e artes marciais antes de, em 1983, ter iniciado a sua formação enquanto bailarino na Escola de Dança Rui Horta e no Ballet Gulbenkian.

Entre 1984 e 1988. desenvolveu a sua técnica de dança segundo várias abordagens em Nova Iorque, Berlim e Lisboa, nomeadamente o contact improvisation, de Steve Paxton, e a Nova Dança Americana, com coreógrafos como Trisha Brown e Wim Wanderkeybus.

De 1986 a 1989, foi bailarino da Companhia de Dança de Lisboa, do Ballet Gulbenkian, do Peridence Ensemble, da Companhia Mark Haim & Friends e de Franscisco Camacho.

Iniciou a sua actividade coreográfica em 1989, com o trabalho "Plano para Identificar o Centro" para o XII Estúdio Coreográfico do Ballet Gulbenkian, continuando esse trabalho criando coreografias para diversas instituições e escolas, donde se realçam as obras: "Do Medo, da Ilusão e da Queda" (1990) e "Bonjour Tristesse" (1996) para o Ballet Gulbenkian; "Act of Cumplicity" (1989) e "Estudos" (1992) para os alunos finalistas da Escola de Dança do Conservatório de Lisboa; "Sem Título" (1992) para a Companhia CêDêCê de Setúbal; "Amor ouSexo" (1995) para os alunos finalistas do Centre National de Danse Contemporaine de Angers (França).

Também em 1989, fundou, juntamente com Vera Mantero e Francisco Camacho, a cooperativa 'Pós d'Arte, um forum de discussão artística.

Em 1990, fundou a Companhia RE.AL (REsposta.ALternativa), para a qual criou, entre 1990 e 2000, as seguintes coreografias: "Retrato da Memória enquanto Peso Morto" (1990), "Solo para Dois Intérpretes" (1991), "O que Eu Penso que Ele Pensa que Eu Penso" (1992), "Branco Sujo" (1993), "Recentes Desejos Mutilados" (1994), "Amor ou Sexo" (1995), "Self(ish) Portrait" (1995), "O Desejo Ardente Deve Ser Acompanhado por uma Vontade Firme" (1995), "Vidas Silenciosas" (1997), "Mindfield" (1998), "...e inversamente" (1998), "O que Eu Sou Não Fui Sozinho" (2000).
Desde 1995, colabora regularmente com o encenador Jorge Silva Melo, enquanto responsável pelo movimento. Participou na produção "Germania III" (1997), de Heiner Muller, com encenação de Jean Jourdheuil. Tem colaborado frequentemente com os Artistas Unidos, tendo encenado, neste âmbito, a peça "À Espera de Godôt", de Samuel Beckett, em 2000.
Como professor convidado, João Fiadeiro tem leccionado técnicas de Nova Dança e Composição em várias estruturas de ensino, nacionais e estrangeiras, sendo, actualmente, professor auxiliar convidado no curso de Dança da Faculdade de Motricidade Humana, em Lisboa.

No que diz respeito à Companhia RE.AL, é importante realçar, de entre os vários projectos de formação e apoio a novos criadores, o Projecto Olho Real, iniciativa em conjunto com a Olho Associação Teatral, que produziu e divulgou, entre 1996 e 1997, o trabalho de novos criadores; e o "Lab - Projectos em Movimento", que, desde 1993, tem vindo a proporcionar espaço e meios técnicos para a pesquisa a artistas contemporâneos, workshops, conferências, seminários e debates, promovendo um local propício para a investigação artística e o necessário confronto com o público, teóricos da arte e outros artistas.

Desta última iniciativa resultou uma revista/livro, o DOC.LAB(1999), onde estão reunidos textos de artistas, público e participantes (neste caso, do LAB 8), sobre a questão da relação entre a pesquisa invisível do artista e a sua partilha pública, já que o objectivo prioritário do LAB é essa parte invisível.

Bibliografia...

FAZENDA, Maria José. SANTOS, Ezequiel. Outros. Movimentos Presentes - Aspectos da Dança Independente em Portugal. Lisboa: Edições Cotovia.1997.

DOC.LAB Nº0. Vários autores. Lisboa: RE.AL (Resposta.Alternativa). 1999.

RIBEIRO, António Pinto. Dança Temporariamente Contemporânea. Lisboa: Vega.1994.

BATALHA, Ana Paula. XAREZ, Luís. Sistemática da Dança I - Projecto Taxonómico. Cruz Quebrada: Faculdade de Motricidade Humana. 1999.

Videografia... 

Self(ish) Portrait. João Fiadeiro. Lisboa: Companhia RE.AL/João Fiadeiro. 1995

Nota: Grande parte do trabalho foi elaborada com base nas aulas que João Fiadeiro lecciona na Faculdade de Motricidade Humana, tendo como princípio o seu conceito de Composição em Tempo Real, na visualização de espectáculos ao vivo do coreógrafo, nomeadamente, "I am sitting..." e "O que Sou Não Fui Sozinho"("N'A Capital, 2000), e em material cedido pela Companhia RE.AL.

 
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