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Ciências Sociais - Psicologia

O LEVIATÃ
PSICOLOGIA DO DESENVOLVIMENTO E DA CRIANÇA
- by to-zé s. & charlie

ÍNDICE
PRELÚDIO
NOTA LIMIAR
O LEVIATÃ
- O PARADIGMA PERDIDO OU A CONSTITUIÇÃO DE UM MODELO TEÓRICO

- o Sujeito

- O Auto-Conceito

- O Looking-Glass-Self

- A Socialização

- DO NASCIMENTO À PRAXIS INDIVIDUAL

- Do Objecto Libidinal ao Objecto Permanente

- Dos Reflexos aos Sistemas de Relação Filho-Mãe

- Posfácio ao Capítulo ou Prefácio do Capítulo Posterior

- DA PRAXIS INDIVIDUAL AO PRÁTICO-INERTE

- Praxis Individual como Totalização

- Relações Humanas como Mediação entre Diferentes Sectores da Materialidade

- A MATÉRIA COMO TOTALIDADE TOTALIZADA E UMA PRIMEIRA EXPERIÊNCIA DA NECESSIDADE

- O SER DE CLASSE

- COLECTIVOS

- BIBLIOGRAFIA

PRELÚDIO

No presente trabalho dedicaremos a nossa atenção ao modo como no desenvolvimento de um indivíduo, certo tipo de processos de socialização participam na formação do auto-conceito.

O auto-conceito neste contexto consiste em duas partes, a auto-imagem (a maneira como a pessoa se vê a si própria) e a auto-estima (o valor que a pessoa atribui a si própria), partes integrantes da personalidade de um sujeito.

O problema colocar-se-á no sentido de, no âmbito da sua ontogénese, descobrir uma função causal inerente ao processo de socialização.

NOTA LIMIAR

O trabalho é centrado em conceitos-chave.

A necessidade de transpor para tão curto espaço tão vasto campo de objectivos, determinou uma longa elaboração conceptual que presumivelmente interferirá na inteligibilidade da sua longa leitura, sugerindo-se a utilização do Quadro Sinóptico 1, para a percepção das estruturas envolvidas.

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O LEVIATÃ

O PARADIGMA PERDIDO OU A CONSTITUIÇÃO DE UM MODELO TEÓRICO

O SUJEITO

A obra de Piaget encontra-se orientada no sentido de estudar as estruturas cognitivas (o seu objecto), reduzindo a componente da afectividade à energética do comportamento, assimilando-a à motivação ou seja às necessidades do organismo.

Não nega no entanto que os processos cognitivos e os processos afectivos se desenvolvam paralelamente, mas na sua perspectiva psicosociológica (formação do juízo moral da criança) apenas se baseia, na hipótese da existência de uma correspondência entre as estruturações que neguem as actividades cognitivas do indivíduo e as que intervêm nas interacções sociais.

Esta hipótese coloca-nos o problema de estatuto das condutas observadas nas interacções sociais. Será que elas só dependem dum certo nível de desenvolvimento cognitivo? Ou será que estão na origem de um desenvolvimento simultaneamente cognitivo e social, do qual são elemento determinante?

Neste trabalho, o "sujeito" considerado por Piaget não esclarece o problema da causalidade na formação do auto-conceito, pois apenas põe em evidência o facto de que a interacção social desempenha uma função determinante na espiral do desenvolvimento das estruturas cognitivas. Não faz sentido para Piaget falar-se de estruturas afectivas.

É aqui que J. Marie Dolle embora de acordo com a concepção Piagetiana da inteligência como forma de adaptação, se demarca deste autor e concebe a afectividade como forma de adaptação às pessoas, que tal como os processos cognitivos possui um desenvolvimento paralelo à teoria dos estadios cognitivos com estruturas e estruturações.

Dolle distingue a inter-relação (sujeito1sujeito2) da interacção (sujeitoobjecto). Considera a inter-relação como uma situação em que o objecto de interacção é outro sujeito (S2) que reage à acção de S1.

Será então através da inter-relação que iremos conceber a afectividade. As inter-relações surgem aliás primeiro que as interacções, pois a construção do objecto permanente na criança, base de todo o desenvolvimento cognitivo posterior, começa com uma inter-relação, a relação objectal à mãe.

A afectividade e os processos cognitivos aparecem ligados a duas lógicas diferentes, respectivamente a lógica da contradição e a lógica da não contradição.

Na lógica da contradição, afirmação e negação são simultaneamente aplicadas ao mesmo objecto pelo mesmo sujeito, a esta situação de ambivalência Sartre refere-se como a angústia da escolha.

Dolle considera que o processo de desenvolvimento variaria entre estas duas lógicas, ora prevalecendo a afectividade (actualização) e mantendo-se a inteligência potencializada, ou actualizando-se a inteligência e potencializando-se a afectividade, num processo rítmico mas que em todo o momento ambas estão presentes e em constante condicionamento recíproco.

Dolle fala ainda de oscilações entre tensões (arthis) e distensões (thesis). A parte mais relevante da sua teoria é a tentativa de criar uma explicação para o processo dialéctico das actualizações e potencializações da inteligência e da afectividade. Para Dolle a afectividade surge como energia, como repercussão (retentissement) e como ligação (attachement).

Considera o processo de desenvolvimento como resultado da interacção entre um sujeito afectivo e um sujeito cognitivo, tendo como resultante um sujeito social, que só passará de um estadio a outro pela mediação inicial da afectividade.

O processo de socialização no sentido Sujeito2 Sujeito1 daria lugar a repercussões e no sentido Sujeito1 Sujeito2 a ligações. A afectividade variável enquanto resistência às estruturas de adaptação do Sujeito Epistémico, traduz o efeito mediador do Sujeito2 sobre o Sujeito1 no sentido de permitir a S1 uma maior diferenciação dessas mesmas estruturas de adaptação.

Dolle privilegia as estruturas cognitivas subordinando-lhes a afectividade e cria um paradigma epistemológico da afectividade e da inteligência, a interpenetração entre a lógica do antagonismo e a da equivalência.

Um vazio a considerar no estudo de Dolle será a pouca relevância atribuída no processo de socialização, pois a sua análise inter-relacional não ultrapassa a fronteira dos sujeitos, reduzindo o processo aos seus efeitos quer S1(repercussão), quer em S2 (ligação).

Refere no entanto num estudo posterior, de que desconhecemos a presumível conceptualização, que o inter-relacionsimo e o interaccionismo se encontra a mesma dialéctica que entre valor de uso e valor de troca verificada nas relações Indivíduo Meio.

Tentaremos colmatar este vazio através da dialéctica existencial de Sartre. Sartre considera que o homem é mediado pelas coisas na mesma medida em que as coisas são mediadas pelo Homem, Homem este relacionado com a materialidade em e através dos outros Homens.

A relação de materialidade atrás referida é um exemplo da espiralidade do pensamento dialéctico.

Este é o tipo de análise necessária à interpretação do Homem no "cenário humano".

Este raciocínio permite-nos compreender o meio pelo qual uma pluralidade é constituída como um Total, (uma "totalização" no sentido de Sartre), seja como um todo-sujeito ou um todo-objecto:

- uma totalização é uma organização unificadora de uma pluralidade e a humanidade é uma pluralidade de tais organizações.

A relação totalizante do ser material, o Homem, com o mundo material é definida por necessidade.

A necessidade destotaliza a totalidade criando uma dialéctica da totalização-destotalização-retotalização.

Sartre refere a destotalização, como "uma injecção do Nada no Mundo" criando com ele uma relação unívoca e não-recíproca, que se traduz numa praxis individual.

Esta "nouance" permite-nos criar uma relação de equivalência entre os seguintes conceitos de Sartre e Dolle respectivamente:

1 - Relação de Materialidade Valor de Uso e Valor de Troca
2 - O Homem mediado pelas coisas na mesma medida em que as coisas são mediadas pelo Homem Interacção
3 - O Homem relacionado com a materialidade em e através dos outros homens Inter-Relação
4 - Tensão-Distensão-Tensão Totalização- Destotalização- Retotalização
5 - S1 S2 Relação Unívoca S1S2 (Ligação)
S2 S1 e não recíproca S2S1(Repercussão)
 
"Praxis Individual"
Esta transposição conceptual permitir-nos-á posteriormente explicar como se forma o auto-conceito (pluralidade) num sujeito total, que será integrado pela sua praxis individual no grupo e na história (*), através do processo de socialização.

O processo de socialização será considerado como exemplo da circularidade do pensamento dialéctico, já que as relações indivíduo - meio afectam a formação do auto-conceito, assim como ao auto-conceito afecta as relações Indivíduo Meio.

O Looking-Glass-Self, principal determinante da formação do auto-conceito no processo de socialização é o elemento estrutural da praxis individual.

A comparação com os outros, os papéis e a identificação com modelos, também elementos determinantes da formação do auto-conceito no processo de socialização, integram o Looking-Glass-Self, elemento estrutural da praxis individual no grupo e na história.

Agora já podemos apresentar um quadro sinóptico da estrutura deste trabalho.

(*) - "A matéria no homem e através do homem é o motor da história e constitui um futuro comum".
"Razão e Violência"
R.D. Laing e D.G. Cooper

O AUTO-CONCEITO

Mas qual é a essência do auto-conceito?

Para não entrarmos em desnecessárias lucubrações sobre a natureza do Self, adoptaremos a definição de Argyle.

O auto-conceito, neste contexto consiste de duas partes, a auto-imagem, a forma como a pessoa se vê a si própria e a auto-estima, o valor que a pessoa atribui a si própria.

Uma forma de avaliar a auto-imagem é a aplicação do TST (Twenty-Statement-Test) que consta de vinte respostas à pergunta "Quem Sou Eu ?".

Argyle cita um estudo efectuado por Mulford e Salisbury onde os sujeitos foram testados através do TST e se encontrou quatro partes comuns, ao incidir a análise sobre os termos em que as pessoas se vêm mais frequentemente:
1 - Relações Familiares -------------- 70%
2 - Ocupação ------------------------------ 68%
3 - Status Marital ------------------------- 34%
4 - Identidade Religiosa -------------- 30%
Khun e McPartland aplicaram o TST num experimento e verificaram que as respostas das pessoas apareciam igualmente divididas entre papéis objectivos ou outras propriedades como "mulher ou casada" e traços de personalidade como "feliz ou bom".

A imagem do corpo embora seja um factor de ordem diferente é uma parte importante da auto-imagem, pois é provavelmente a primeira parte da auto-imagem formada pela criança.

Alguns estudos sugerem que o tamanho do corpo também tem importância na auto-imagem, já que aparece ligado a um ideal cultural aprendido, que determina quão satisfeitas as pessoas se encontram com os seus corpos.

A auto-estima pode ser avaliada pela aplicação do SEI (Self-Esteem-Inventory), de Coopersmith. Coopersmith (1967), no seu trabalho baseado em dados teóricos e empíricos, sugere que certas características pessoais, se encontram associadas com a auto-estima:
1 - Atributos Físicos
2 - Estados Afectivos
3 - Problemas e Patologias
4 - Capacidades Gerais, Habilidade e "Performances"
5 - Valores Pessoais
Assim, convém recordar o que este autor entende por auto-estima:

- "..referimos a avaliação que o indivíduo faz e costumamente mantém ao observar-se a si próprio: ela expressa uma atitude de aprovação ou desaprovação e indica a extensão do que o indivíduo acredita que ele próprio é capaz, significante, sucedido e mal-sucedido".

Resumindo, a auto-estima é o julgamento pessoal da valoração que é expressa nas atitudes que o indivíduo toma sobre ele próprio.

No seu estudo, na área dos atributos físicos, conclui que o desenvolvimento motor se encontra correlacionado com a auto-estima, ao verificar que a idade em que a criança começava a andar, tinha influência na estruturação da auto-estima.

Segue-se o quadro estatístico.

  Auto-estima subjectiva
Idade em que os sujeitos começam a andar Baixa Média Alta
15 meses ou menos 32,1% (9) 66,7% (10) 60% (18)
Mais de 15 Meses 67,9% (19) 33,3% (15) 40% (12)
  100% (28) | 100% (25) 100% (30)
Destes resultados conclui que quanto mais cedo a criança começa a andar maior será a sua auto-estima. Discute ainda sobre as questões dos atributos físicos, tamanho e peso que no presente trabalho não consideraremos necessário.

Partimos do princípio que presumivelmente existirá uma correlação entre o processo de maturação e a formação da auto-estima. Abordaremos este assunto quando tratarmos a questão da elaboração progressiva dos reflexos hereditários.

Na segunda área, a relativa aos estados afectivos, Coopersmith refere três aspectos do afecto:

1 - O afecto "total"

2 - A extensão da ansiedade e tensão que o sujeito expressa

3 - A extensão da "felicidade" que o indivíduo revela.

O afecto "total" é a medida que o sujeito expressa num teste projectivo. Assim descobriu que as crianças com alta auto-estima, eram relativamente livres de ansiedade, eram mais expressivas e "felizes", enquanto que as que tinham baixa auto-estima apresentavam ansiedade, eram menos expressivas e felizes.

Quanto à terceira área referente aos problemas e patologia, verificou que as crianças com baixa-auto-estima tinham tendência a mostrar mais sintomas psicossomáticos.

Na quarta área, a das capacidades e "performance" académica, verificou que estas se encontravam associadas aos sentimentos de valoração pessoal.

Na última área, a dos valores pessoais, verificou que os pais de crianças com alta e baixa auto-estima, favoreciam o aparecimento de diferentes valores e respectivamente de sucesso escolar e acomodação social.


O LOOKING-GLASS-SELF

Charles Cooley, através da noção de "Looking-Glass-Self"", considera que o auto-conceito depende bastante da maneira como o indivíduo interpreta as reacções e opiniões das pessoas preponderantes do seu meio.

Para Cooley a noção de "Looking-Glass-Self": "através das reacções dos outros descobrimos o que somos", é importante no estudo do auto-conceito, porque a maneira como uma pessoa se vê a si própria é produto do modo como os outros a vêm.

Será importante agora referir que Laing revelando o elemento interpretativo da percepção pessoal, considera que o auto-conceito é formado a partir daquilo que pensamos que são as reacções dos outros para nós. Esta ideia conduz-nos à noção do "outro interiorizado".


A SOCIALIZAÇÃO

Alguns autores afirmam que a formação do auto-conceito, se encontra ligada apenas ao desenvolvimento das capacidades natas, portanto mais dependentes da hereditariedade biológica que das influências do meio. Destas teorias apenas conservamos uma noção de desenvolvimento biológico, pois que a formação do auto-conceito pode ser influenciada ao longo do processo de maturação fisiológica.

Outros autores têm uma interpretação diferente considerando como foco central, a importância do meio na ontogénese do auto-conceito, cuja formação é exclusivamente atribuída à interacção do indivíduo com os outros. Esta acepção traduz uma dialéctica constante entre o processo de socialização e o auto-conceito.

Situando-nos na continuidade desta perspectiva consideraremos existir igualmente uma dialéctica entre as relações interpessoais e a sociedade.

Só assim será possível descrever o processo de socialização de um sujeito biopsicossocial.


Sinopse teórica do Trabalho

DO NASCIMENTO À PRAXIS INDIVIDUAL
Introdução

" A "existência" de Kierkegaard, é a obra da nossa vida interior, de resistências vencidas e incessantemente renovadas, fracassos temporários e precárias vitórias - trabalho em oposição directa ao conhecimento intelectual".
"Razão e Violência"
R.D. Laing e D.G. Cooper

As relações sociais são o fulcro do desenvolvimento do auto-conceito. Elas dão ao indivíduo uma "imagem mental" das pessoas com quem ele interage.

A única realidade que temos das pessoas é a que nós encontramos na nossa cabeça - nós "" "O OUTRO".

Logo a relação mãe-criança será o embrionário e o estruturante de todas as relações posteriores.

Assim tentaremos analisar de que forma a estruturação da afectividade, na relação mãe-criança, influencia a elaboração do auto-conceito no âmbito da sua génese.

"O sucesso como objectivação permite à pessoa inserir-se nas coisas, obrigando-a a ultrapassar-se".
"Razão e Violência"
R.D. Laing e D.G. Cooper

DO NASCIMENTO À PRAXIS INDIVIDUAL

A construção do objecto-libidinal como primeira estruturação da afectividade, é já também a primeira forma do objecto permanente (cognitivo).

Este facto revela que a inserção no mundo se efectua primeiramente através das pessoas, antes de atingir a forma cognitiva.

A estruturação da afectividade, realiza-se no âmbito inter-relacional da mãe e da criança e recíprocamente. A criança alternando entre a fome (insatisfação) e a replecção (satisfação).

A relação com a mãe determinará esta satisfação-insatisfação, cuja alternância a criança "sente" em relação ao seu estado fisiológico e à sua mãe.

Assim a mãe satisfará (boa) ou frustrará (má).

Se há uma maior tendência para frustrar que para satisfazer, a relação terá reflexos patogénicos na criança. A resposta da mãe aos "pedidos" da criança condicionará a sua conquista do real.

Como tal a afectividade e a inteligência estruturam-se por actividade sensorio-motora.

DO OBJECTO LIBIDINAL AO OBJECTO PERMANENTE


O surgir da angústia dos oito meses (Spitz), marca a predominância da mãe e do que ela representa para a criança, como relação singular e distinta de qualquer outra.

Cognitivamente a mãe é diferente de qualquer outra pessoa. A mãe é lida e identificada como sistema de signos significantes para o bébé e descodificados por este enquanto tais.

Ao princípio a criança só consegue interpretar índices fixos e pouco numerosos, atribuíndo-lhes uma significação.

A flexibilização progressiva de índices com variações cada vez mais importantes, não impedem a identificação da mãe.

Visto noutra perspectiva, o objecto libidinal , torna-se cada vez mais permanente, através das transformações progressivas ao nível da leitura de índices que o bébé faz dele. O que reflecte que os sistemas de representação se enriquecem ao mesmo tempo que os sistemas de tratamento.

Na parte afectiva, o objecto libidinal, como convergência de todas as pulsões, inicialmente perde-se rapidamente devido às transformações resultantes das sucessivas aparições e desaparições.

Assim a intermitência da descarga pulsional, provoca angústia resultante da perda do objecto que pouco a pouco se equilibra, por a mãe adquirir mais permanência que pode ser vista em dois sentidos:

- no ponto de vista cognitivo, a mãe deixa de desaparecer na "consciência" da criança ao sair do seu campo visual, contribuindo para mais tarde construir a imagem mental da mãe.

- no ponto de vista afectivo, a presença da mãe provoca no bébé um sentimento de segurança profunda que apazigua toda a angústia, pelo que todo o desejo é centrado nela.

A presença da mãe dando um sentimento de bem-estar ao bébé, leva-o a procurar em si próprio este sentimento quando a mãe se ausenta (mãe interiorizada).

A falta da presença da mãe leva o bébé a um estado de insatisfação, pelo que reivindicará a sua presença através de choros e gritos.

Este sentimento de carência constituirá o fundamento da emergência do objecto permanente, primeiro afectivo e depois cognitivo.

Estes factos permitem-nos observar quão dependente se encontra a formação do auto-conceito da construção da "mãe interiorizada".

Se para Piaget a imagem é produto de imitação interiorizada, será que a imitação não se originará nas condutas afectivas?

Será que antes da distinção cognitiva-afectiva entre significantes e significados não será ela já embrionária?

A mãe é identificada como objecto prevalecente e exclusivo, a sua procura activa aquando das suas ausências aparece como primeira diferenciação entre significantes e significados.

Assim, não será que se constitui uma "imagem mental" da mãe, já que ela é vista "mentalmente" aquando da sua procura?

Mais ainda, o carácter durável dos sentimentos nascidos em relação à mãe, constituem-na como objecto cada vez mais permanente.

A criança adquire o sentimento que a ausência não é anulação, já que a relação dual continua com o sentimento de permanência da mãe, quando ela já não é perceptível.

A constituição da mãe como suporte permanente das relações libidinais do bébé, põe-nos a questão do desejo transformado em necessidade.

O atraso na satisfação da necessidade-desejo, portanto frustrações repetidas impostas pela mãe neurótica por recalcamento do seu próprio desejo, contribuirá para fixar a criança nas suas carências. Assim as "fixações" surgem não como paragem do desenvolvimento afectivo, mas como expressão repetida de uma carência donde nascerão as fantasmatizações ulteriores.

Daqui se infere que a interiorização da mãe (a maneira como a criança vê a mãe) terá reflexos importantes na constituição do auto-conceito e que importantes carências com patologização posterior, terão também influência na elaboração do auto-conceito.

Originado na expressão da necessidade-desejo, o imaginário constituir-se-á e tomará forma na relação com o Outro.

O seu papel fundamental estará nas relações da criança com as pessoas, pois será o lugar onde surge o desejo nascido nas necessidades e que estruturará a relação progressiva entre o bébé e a mãe e depois entre o sujeito e os outros.

Assim a afectividade como presumível passagem do biológico ao cognitivo, diz respeito ao indivíduo em relação a si próprio e em relação aos outros indivíduos. Tal como Freud a refere, fundamenta-se na busca do prazer ligada à sexualidade.

DOS REFLEXOS AOS SISTEMAS DE RELAÇÃO FILHO-MÃE

O comportamento visto como adaptação ao meio ambiente, neste contexto, passa pela relação às pessoas mas elaborando-se sobre um fundo de reflexos hereditários, sendo o mais importante, o reflexo de sucção que irá funcionar como organizador dos comportamentos ulteriores.

O reflexo de sucção, servir-nos-á para relacionar a afectividade e os esquemas sensório-motores e a passagem do fisiológico ao psicológico.

Há portanto relações entre o estado fisiológico (ex: fome), que desencadeiam comportamentos (ex: gritos, choro) e impressões que criam algo estável: os sentimentos.
Quanto maior a fome mais agitados e desordenados são os comportamentos, pelo que mais intensa é a repercussão ou o vivido.

Parece que a intensidade da fome transforma os sentimentos em emoções, que conforme o grau a que se eleva desorganiza os comportamentos adaptados e conforme refere Pierre Janet, os sentimentos são reguladores das condutas e as emoções desorganizadores, podendo no entanto contribuir para a sua reorganização para melhor adaptação.

A relação à mãe poderá ser apresentada figurativamente:

A expressão da fome e o seu apaziguamento passam pela relação com a mãe e é nela que se joga a determinação das condutas de relação-adaptação e da afectividade.

Também os esquemas de comportamento em relação aos objectos funcionam no quadro da inter-relação com as pessoas.

Retomando a relação mãe-criança pode-se apresentar figurativamente a terminologia "boa" e "má" mãe de Melanie Klein.
As estruturas afectivo-cognitivas e os sistemas de relação são determinantes no futuro da criança, já que deles depende a construção da "mãe interiorizada" factor da emergência do Outro.

Assim a necessidade de alimento pode ser vista como pedido e como carência afectiva, do que a satisfação de um é ao mesmo tempo satisfação de outra.
Podem considerar-se vários casos:

1 - "O pedido é satisfeito", criando equilíbrio psicofisiológico, predispondo a criança para uma boa relação com o meio e para a estruturação do mundo e de si, por ela própria.

2 - "O pedido é imperfeitamente satisfeito", a criança só possui uma predisposição imperfeita por existir uma carência remanescente.
3 - "O pedido é insatisfeito", a criança encontra-se na situação de indisponibilidade total, acabando em casos de psicoses graves (autismos).
A disponibilidade parcial cria um pedido insatisfeito que pode influenciar qualquer fase posterior do desenvolvimento afectivo (anal, fálica, edipiana ou mais tarde). Uma das mais importantes descobertas de Freud foi explicar as suas repercussões.

A adaptação só é conseguida na medida em que a afectividade se alarga.

Na perspectiva deste trabalho, o exercício dos esquemas cognitivos e suas progressivas estruturações, pressupõe uma satisfação que mesmo parcial dará à criança um sentimento de (*) "segurança ontológica", raíz da "confiança em si".(*) "O Eu Dividido, R.D. Laing.

A própria satisfação parcial origina a construção do Outro e do mundo e posteriormente de si próprio. As estruturas afecto-cognitivas são uma única e mesma realidade não podendo ser separadas.

Estas ao estruturarem-se com os subjacentes esquemas sensório-motores formam a base necessária das condutas que estruturam a acção.

As estruturas de actividade serão a inteligência que é no fundo adaptação. São as suas estruturações genéticas na dimensão afectiva que condicionam a afectividade.

O conceito de "attachement" exprime bem a necessidade de amor e a exigência concorrente (pedido). As actividades relativas ao pedido visam respectivamente a eficácia e a satisfação, que funcionam num sistema de reciprocidade.

Entre o nascimento e o 15ºMês, a busca de satisfação predomina sobre a eficácia. Por outras palavras, o essencial da actividade busca satisfação em condutas eficazes.

As condutas eficazes entre os dois e os 6/7 anos viram-se para a satisfação em relação às pessoas e às coisas.

Depois dos sete anos a eficácia das actividades procura organizar o mundo, para a conduta eficaz e para o conhecimento.

A acção (praxis) visa eficácia e o seu exercício é também movido por ela própria.

Se os esquemas de actividade atingem o objectivo, dão ao sujeito um sentimento de eficácia que os leva a repetir indefinidamente.

A afectividade como energia, alimenta a inteligência e em contrapartida a sua construção por e em actividade alimenta a afectividade.

POSFÁCIO AO CAPÍTULO OU PREFÁCIO AO CAPÍTULO POSTERIOR

A estruturação equilibrada da génese afecto-cognitiva, é da maior importância para a emergência do auto-conceito, indicionando toda a sua evolução (via looking-glass-self).

A constituição da "mãe interiorizada" (embrião do Outro interiorizado), criada na inter-relação com a mãe, que é necessária à expressão da necessidade-desejo, constituirá o imaginário que tomará forma na relação com o Outro.

A acção ou a "praxis individual" visam a eficácia e a satisfação, criando um sentimento de sucesso ou insucesso que respectivamente refreará a acção do indivíduo ou levá-lo-á a repeti-la indefinidamente.

O sentimento da eficácia da acção, expressar-se-á na estrutura totalizada do auto-conceito. A praxis individual originada pela injecção-do-Nada-no-Mundo (Sartre), que é uma necessidade num campo total de necessidades, destotaliza o sujeito em relação ao mundo levando-o a criar com ele, uma relação única e não recíproca.

O Homem relacionar-se-á com a materialidade em e através dos outros homens, verificando-se nesta relação o conceito de valor de uso - valor de troca.

Na reciprocidade da relação ou intercâmbio, tornamos o outro como objecto e instrumento dos nossos objectivos, conservando-se no entanto o indivíduo como produto do seu produto.

A totalização das acções humanas, sempre mediada pela matéria, é por um lado totalização, feita à matéria pelas relações humanas pela matéria. (Notar a equivalência com a elaboração afectivo-cognitivo).

A matéria como negação do homem é no entanto a única unidade totalizadora da história.

A relação de uma multiplicidade de sujeitos com o campo material, onde a praxis emerge pela necessidade, nasce na relação de cada um deles com o campo e nas reciprocidades entre eles. Esta reciprocidade aparece aplicada ao conceito de necessidade-escassez.

As realidades da praxis, realizam em e por elas mesmas, a interpenetração de uma multiplicidade de indivíduos, organizados numa totalidade histórica, produto do trabalho humano.

DA PRAXIS INDIVIDUAL AO PRÁTICO-INERTE

"Passa-se a desejar possuir o fio de Ariadne, para conduzir-nos da praxis individual às diversas formas de conjuntos humanos".
"Razão e Violência"
R.D. Laing e D.G. Cooper

A história é uma totalização, pelo que as praxis (acções) individuais são o único factor temporal de totalização, é preciso descobrir como é que uma multiplicidade de indivíduos produz também uma acção (praxis), por intermédio de uma multiplicidade de totalizações.

É necessário clarificar a dialéctica pela qual a praxis se torna uma praxis-processo. O indivíduo durante a sua vida passa por várias colectividades (família, escola, trabalho).

Temos então de descobrir as necessidades de transformação da praxis, da série ao grupo e as séries. Falaremos de grupos de grupos: as classes e o ser classe, referindo as suas estruturas internas e relações com outras classes.

O objectivo será então, descobrir como no interior do movimento histórico, uma multiplicidade de homen vem a ser definida pela forma dos seus conflitos e como este facto se projecta no auto-conceito de cada homem, através de papéis de identificação com modelos e comparação com os outros.


PRAXIS INDIVIDUAL COMO TOTALIZAÇÃO

"...a vida pessoal nos termos de Sartre como "constituída-constituinte", como uma unidade sintética do que fazemos daquilo que somos feitos"
"Razão e Violência"
R.D. Laing e D.G. Cooper

Sartre considera que o homem é mediado pelas coisas na mesma medida em que as coisas são mediadas pelo Homem, homem este relacionado com a materialidade em e através dos outros homens.

A relação assim concebida, é um exemplo da espiralidade do pensamento dialéctico.

Este tipo de análise é necessária à interpretação do Homem no "cenário humano", este raciocínio permite-nos compreender o meio pelo qual uma pluralidade é constituída como um total (uma "totalização" segundo Sarte), seja um todo-sujeito ou um todo-objecto.

Uma totalização é uma organização unificadora de uma pluralidade e a humanidade é uma pluralidade de tais organizações. A relação totalizante do ser material, o Homem com o mundo material é definida por necessidade.

A necessidade destotaliza a totalidade, criando uma dialéctica da totalização-destotalização-retotalização. Ela é uma interiorização, feita pelo homem, necessitado de uma carência no campo total das satisfações.

A destotalização é uma "injecção-do-Nada-no-Mundo", criando com ele, uma relação unívoca e não recíproca, que se expressa numa praxis individual.

O campo da praxis individual (é uma totalidade) é totalizado como unidade de recursos e meios para satisfação das necessidades. Este campo é uma pluralidade inerte de recursos e meios, se o virmos como campo instrumental.

Na praxis é que se encontrarão as zonas ou objectos privilegiados nessa totalidade. O corpo encontra-se sempre necessitado: necessidade como função e praxis.

RELAÇÕES HUMANAS COMO MEDIAÇÃO ENTRE DIFERENTES SECTORES DA MATERIALIDADE

O Homem está sempre relacionado com a matéria em e através dos outros homens. As relações interpessoais são intermediárias do campo material, mediadas em e através do campo material são condicionadas por factores externos.

A mateialidade é inerte (total das praxis possíveis) e é circulante pois "foge-nos" em virtude da multiplicidade de outras unicidades ou totalizações, feitas por outrem e que complementem ou não a nossa.

A totalidade das minhas praxis possíveis é destotalizada por ser campo de uma totalização da praxis de outrem, na qual somos apenas parte da totalização dele.

Nesta dialéctica a materialidade irá transformar-se num veículo de significado.

Por outras palavras, o grau em que as acções das outras pessoas confirma as nossas expectativas sobre elas e a medida em que o nosso comportamento satisfaz as expectativas que os outros têm acerca de nós, depende da capacidade e disposição para nos comportar-mos duma maneira regular e previsível (com a consequente introjecção do compromisso ou violência).

Na reciprocidade cada um pode fazer dos fins do outro um veículo para si, da mesma maneira que o outro para si um veículo dos nossos fins.

A reciprocidade terá o carácter de intercâmbio, que efectuado no campo da materialidade, se estabelece pela relação do conceito de valor de uso - valor de troca.
Portanto em reciprocidade somos do mesmo tempo, objecto e instrumento dos fins dos outro, pelo facto de o tornarmos objecto e instrumento das nossas finalidades, conservando-se no entanto cada um como produto do seu produto.

Neste intercâmbio, está a totalização do auto-conceito e a unidade organizadora da multiplicidade, o looking -glass- self. Convirá sempre frisar o campo de materialidade onde se efectua o intercâmbio sempre condicionado pela totalidade da história.

A unificação encontra-se no reconhecimento mútuo, como dois agentes, cada qual integrando todo o Universo.

No entanto, a unificação que é constituída sobre uma relação de materialidade, a classe dos objectos (classificação) e o seu uso (seriação), transforma a pessoa e determina o seu relacionamento.

"O Outro (como terceiro) é o mediador não recíproco da unificação da díade".
"Razão e Violência"
(Já citada)

A totalização das acções humanas sempre mediada pela matéria, é totalização feita à matéria pelas relações humanas por um lado e por outro lado totalização feita às relações humanas pela matéria.

A MATÉRIA COMO TOTALIDADE TOTALIZADA E UMA PRIMEIRA EXPERIÊNCIA DE NECESSIDADE

"Eu existo apenas através daqueles que nada são além do seu ser por meu intermédio".

Jean Genet
(citado em "Razão e Violência")

"A dialéctica é a lei da totalização. Organizações colectivas, sociedades, história.
São realidades impostas ou que se impõem ao indivíduo"

"Razão e Violência
(já citada)

A história humana, é totalização (no) presente do passado e orientação do futuro, pois os homens fazem a história baseados em condições anteriores. A ideia torna-se uma coisa significada por coisas e não um acto significante.

A matéria, como negação do Homem é no entanto a única realidade totalizadora da história.

A relação de uma multiplicidade de sujeitos com o campo onde a praxis emerge pela necessidade (nascida nas relações de cada um com o campo e nas reciprocidades entre os sujeitos) e no entanto a relação fundamental da nossa história e a reciprocidade da necessidade-escassez (valor de uso-valor de troca).

A dialéctica da necessidade-escassez é o factor que possibilita a explicação da história. O próprio indivíduo é simultaneamente redundante e escasso quando inserido dentro de um grupo.

Condicionado pela matéria o homem não age só pela necessidade, mas também reage às exigências do objecto (coisa) sobre ele. Estas exigências influenciam também a criação do grupo.

A contradição dos interesses de classe (sentido marxista) revela a tentativa individual de encontrar o laço original com a matéria.

A acção para satisfazer a necessidade é restringida pelo Outro, criando uma alteração ao passar da "minha-acção-para-mim" para "minha-acção-para-si".

A "alteridade" será o aspecto estrutural da transição de "self-para-o-self" a "outro-para-o-outro". O movimento será a alteração, a relação de materialidade subjacente é a objectivação da praxis materializada.

O homem é portanto encontrado na dialéctica criada entre objectivações (apropriações da matéria) da praxis material e as suas alterações como "outro-para-o-outro""(*)(*) ver relação do sujeito cognitivo com a apropriação do campo da materialidade via necessidade/(desejo enquanto afectividade).

Encontramos o espelho da dialéctica do sujeito afectivo-cognitivo de J.M. Dolle nos conceitos de alteridade e objectivação.

Partimos para a História através da aproximação do homem ao primeiro objecto e da emergência das estruturas lógicas do sujeito cognitivo.

Do animal rodeado pela Natureza, surge a actividade existencial do Sapiens, produto de interacção de quatro polos sistémicos:*

1 - O Sistema Genético (código genético, genótipo)

2 - O Cérebro (epicentro fenotípico)

3 - O Sistema Sócio-Cultural (sistema fenomenal generativo)

4 - O Ecosistema (enquanto carácter local (núcleo ecológico) e carácter global (ambiente)).

* - "O Paradigma Perdido . A Natureza Humana"
Morin, Edgar

O SER DE CLASSE

"Quando aparece o Sapiens o homem já é socius-faber-loquens"

"O Paradigma Perdido"
Morin, Edgar

A alienação da praxis individual pela alteração e objectivação do "ser-para-o-outro" é "ser-fora-da-coisa", constitui-se e é constituído como matéria prático-inerte.

O ser "classe" (classificado) como inércia interiorizada em cada um, afecta-lhes o destino. Os valores das estruturas de classe, como inércia colectiva, são partilhados no ser campo por todos os indivíduos.

Este facto permite-nos afirmar que a vaga "consciência de classe" supraindividual, se encontrará largamente relacionada com o auto-conceito.

O Looking-Glass-Self surge como expressão da dialéctica entre alterações e objectivações, verificadas no intercâmbio entre os homens em e através da materialidade.

COLECTIVOS


As realidades da praxis na medida em que realizam em e por elas mesmas, a interpenetração de uma multiplicidade de indivíduos organizados numa totalidade, são produto do trabalho humano.

O grupo é uma forma de integração, a multiplicidade de indivíduos através de uma acção conjunta produz uma forma de ser, criada como unidade ou série.

A serialidade será a relação interna-externa. A metamorfose da multiplicidade de uma série será a "serialização".

A série só se torna perceptível pela apreensão da estrutura formal e universal da alteridade. Existirá também um Outro "seriado" como "ser-comum-a-todos".

O campo social da série, é a unidade do "ser-outro" e uma semi-pluralidade. Uma classe social vista no campo prático-inerte, é uma série e o "ser-de-classe" o status da serialidade imposto à multiplicidade dos indivíduos que a compõem.

A estrutura de cada relação está em cada um assim como o interiorizado dessa relação.

Esta estrutura tem uma dupla propriedade: ser inerte (considerando a estrutura como esboço) e ser dinâmica (efectiva, realizada pela praxis de todos e de cada um).

O sistema relacional é portanto ao mesmo tempo um instrumento e um limite do pensamento. O sistema é pois constituído por relações lógicas generalizadas, cujos princípios lógicos, são o compromisso subjacente da própria relação.

A acção interpessoal existe em cada praxis individual como unidade interiorizada da multiplicidade. Cada praxis individual como unidade interiorizada da multiplicidade surge como acção omnipresente e ubíqua do grupo.

Daqui infere-se a relação do "looking-glass-self" à dialéctica da "praxis --» prático-inerte" --» praxis".

Na constituição do grupo ou série, deverá jogar-se o grau em que as acções das outras pessoas confirma as nossas expectativas sobre elas, e a medida em que o nosso comportamento satisfaz as expectativas que os outros têm acerca de nós. Inclusivamente, falar de um auto-conceito "serializado" como produto dos auto-conceitos individuais.

Os papéis sociais envolvem igualmente "performance" de acordo com as expectivas dos outros. As pessoas validam as suas opiniões e capacidades, comparando as "performances" e valores pessoais com os das outras pessoas.

A questão das expectativas ou seja do "ser-outro-para-o-outro" põe-nos o problema das conformidades e das violências perpetradas pela sociedade-grupo-trabalho-escola-família-mãe numa estruturação hierárquica da sociedade de classes.

As expectativas e os conformismos estabelecem-se na dialéctica entre a cultura e a ocupação das várias posições sociais, que requerem "performances" e papel formal apropriado*, que se encontram em todo o indivíduo na avaliação que ele faz a si próprio através dos outros (looking-glass-self).

* - "A relação entre indivíduos, como a relação entre o indivíduo e o grupo, é comandada por um duplo princípio da cooperação-solidariedade por um lado e de competição-antagonismo por o outro lado. A relação de indivíduo a indivíduo, ... ... alimenta o duplo princípio complementar-antagonista da organização social".
"O Paradigma Perdido"
Morin, Edgar


BIBLIOGRAFIA

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