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Ciências Sociais - Psicologia

Consciência por Sara Aleixo

Realizado por: Sara Aleixo      Lisboa, 17 de Junho de 2001
Índice

1. Nota Prévia

Qualquer coisa que se escreva sobre a consciência implica alguma pretensão, porque nunca se pode saber o suficiente sobre este assunto. Este é, portanto, um trabalho assumidamente pretensioso. Mas é também um trabalho inacabado, ou antes, é um trabalho por começar, porque não se pode falar assim, sem mais nem menos, sobre a consciência, e deixar-se a coisa assim, por acabar...É uma procura que pode durar uma vida inteira, a vida da Humanidade...Este não é um trabalho científico mas uma introdução, talvez o princípio de um futuro trabalho, um conjunto de interrogações e reticências...

2. A Evolução da Consciência Topo

A adaptação do Homem a um novo habitat determinou mudanças estruturais e funcionais no seu organismo, catapultando-o para um ramo na árvore da evolução diferente do dos primatas.

A vida na savana, promovendo o bipedalismo, libertação dos membros superiores e desenvolvimento da musculatura peitoral e deltóide, induziu alterações nas funções cardiorrespiratórias, o que, em última análise, favoreceu os processos de linguagem e comunicação. É no processo entre acções manuais e acções cerebrais que, segundo vários autores, se desenvolve a consciência. Desta forma, a emancipação da mão, com a "função de construção, de transformação e de fabricação" [1] , surge também como sinónimo de evolução mental, resultando que "de uma inteligência sensório-motora saltamos filogeneticamente para uma inteligência reflexiva e hipotético-dedutiva". [2]

O cérebro humano teve uma "expansão súbita e misteriosa do tamanho" [3] , num período de 3 milhões de anos desde o Homo habilis até ao Homo sapiens, que surgiu há cerca de 100.000 anos atrás, simbolizando o homem enquanto indivíduo consciente e com percepção de si próprio. Este é considerado "talvez o avanço mais rápido registado para qualquer orgão complexo em toda a história da vida". [4] Este facto, suscitando a curiosidade e interrogação por parte dos antropólogos e paleontólogos, indica a existência de um qualquer factor de pressão selectiva sobre o ser humano. O etnobotânico McKenna sugere que a presença de "compostos químicos mutagénicos e psicoactivos existentes na dieta dos primeiros humanos influenciaram directamente a rápida reorganização das capacidades de processamento informativo do cérebro". [5] Por outras palavras, compostos alucinogénicos como a psilocibina, a dimetiltriptamina (DMT) e a harmalina, podem ter catalisado o aparecimento da autoconsciência humana.

Os nossos antepassados remotos descobriram que certas plantas, quando auto-administradas, suprimem o apetite, diminuem a dor, ocasionam explosões de energia, conferem imunidade contra patogénios e sinergizam as actividades cognitivas. Estas descobertas apontaram o rumo para a nossa longa viagem em direcção à autoconsciência. Assim que nos tornamos omnívoros utilizadores de ferramentas, a própria evolução mudou de um processo de modificação vagarosa da nossa forma física para uma rápida definição de formas culturais através da elaboração de rituais, línguas, escrita, capacidades mnemónicas e tecnologia. [6]

Outra perspectiva para a evolução da consciência, não necessariamente oposta, é a de James Redfield, um sociólogo que considera que a humanidade evolui através de níveis energéticos que se vão complexificando no sentido de uma acumulação de informação na memória espiritual colectiva. Para Redfield, o homem caminha para a emancipação espiritual e para a criação de um novo mundo, baseado em padrões comportamentais sempre superiores, mais espirituais e em comunhão com a natureza.

Neste sentido, Redfield e Mckenna pensam de forma semelhante. Para McKenna, as drogas psicoactivas estão na origem do culto do paleolítico, da Grande Deusa-Mãe, a Terra, e de outros cultos e rituais, como o xamanismo, que é a prática da tradição do Paleolítico Superior e que usa a intoxicação com cogumelos como forma visionária e de comunicação com o Outro Mundo. O nosso actual estado de intoxicação ambiental, desperdício de recursos e sobrepopulação significa a ruptura da nossa ligação com a terra, com a natureza, que, segundo McKenna, advém das restrições impostas à curiosidade e imaginação humanas e ao medo do que estas substâcias possam oferecer de liberdade ao pensamento. É na direcção dos estados alterados de consciência, do êxtase xamânico que devemos caminhar, para recuperarmos essa ligação, segundo McKenna.

Para Redfield, esse reencontro com a natureza não é feito através de drogas, mas através de uma reflexão consciente sobre as nossas origens e os padrões de conflito que construímos contra os outros, como manifestação do nosso mal estar por termos perdido a nossa ligação com a energia universal. Redfield aborda o facto de que o universo é dinâmico e é constituído por um mesmo material, a energia, que se mostra como o elemento comum subjacente a toda a matéria, do qual nós fazemos parte. Existe uma ligação entre as células de todos os organismos vivos, que comunicam através de energia. [7] O fluxo vital faz-se, portanto, através da interacção dessa energia e é seguindo esse fluxo energético universal que se consegue atingir um maior nível de energia. Para isso é necessário atingir-se um estado de espírito harmonioso, acentuando-se a beleza das formas da natureza, de uma pessoa ou de um pensamento.

Quando os seres humanos estão desligados da fonte de energia tentam manipular ou obrigar os outros a prestar-lhes atenção e, portanto, energia, para se sentirem mais fortes e seguros. Essa tendência mantem as pessoas em certos estados estacionários de evolução e de consciência, já que estão presas a padrões de pensamento desligados do fluxo vital, que é sempre renovador e sinónimo de experiência mística e transcendente.

3. A Consciência Nuclear como Alicerce da Consciência Alargada - Topo

É importante estabelecer uma diferença entre a consciência do aqui e agora, do presente, e a consciência que está relacionada com a espécie humana e com o inconsciente colectivo herdado. Damásio distingue entre consciência nuclear, a consciência simples, não exclusivamente humana nem dependente da memória ou do raciocínio, e consciência alargada, a consciência mais complexa, que permite "níveis de conhecimento que abrem caminho à criatividade humana". [8] Ambas se interrelacionam, sendo a consciência alargada dependente da consciência nuclear. No entanto, a consciência nuclear pode existir sem a consciência alargada.

Aldous Huxley também se refere a uma mente alargada, à qual se tem acesso através de um estado alterado de consciência provocado por drogas alucinogénicas. Este conceito, em Huxley, está relacionado com o facto da função do sistema nervoso ser fundamentalmente eliminativa e não produtiva, ou seja, o sistema nervoso selecciona a informação que melhor lhe convém, não a produz. Esta ideia implica que a mente deva estar desperta para o conhecimento e, segundo Huxley e McKenna, os estados alterados de consciência provocados por substâncias psicoactivas aceleram esse processo.

O que o resto de nós vê apenas sob a influência da mescalina, o artista está congenitamente equipado para ver a tempo inteiro. A sua percepção não está limitada ao que é biologicamente ou socialmente útil. Um pedaço do conhecimento da mente alargada passa à válvula redutora do cérebro e ego, até à sua consciência. É um conhecimento do significado intrínseco de todo o existente. [9]

Mas a aquisição de estados transcendentes de consciência, em que o conhecimento universal pode ser percepcionado sem o efeito de "válvula redutora" que o nosso cérebro ou ego podem constituir, é possível através da manipulação voluntária da consciência nuclear. As técnicas de relaxamento, de meditação, de yoga, o controlo da respiração e outras técnicas, essencialmente provenientes das filosofias orientais, são formas de encontrar essa ligação cósmica com a mente alargada.

No relaxamento, a consciência tende a concentrar-se em determinado ponto do corpo, percepcionando o estado em que se encontra e, como se lhe tocasse, e liberta-o de qualquer tensão parasita, tornando-se a respiração nesse ponto mais profunda. Sim, porque todos os pequenos pontos do nosso corpo respiram e nem todos estão sempre a respirar como deve ser!

Quando visualizamos [...], cada inspiração traz-nos energia e enche-nos, como se fossemos um balão; ficamos com mais energia e sentimo-nos muito mais leves, como se estivessemos a flutuar. [10]

Na meditação, a consciência expande-se, alarga-se, comunga com o universo. Mas ambos os processos completam-se.

A alma e a mente perderam instantaneamente o seu vínculo físico e fluíram dali para fora [...] A minha noção de identidade deixou de estar estreitamente limitada por um corpo e passou a abarcar os átomos do ambiente circundante [...] uma glória que não parava de crescer dentro de mim começou a envolver cidades, continentes, a terra, os sistemas solar e estelar. [11]

Nestas circunstâncias, o corpo e a mente tornam-se numa unidade, em que todas as tensões, que são separação entre a consciência nuclear e a consciência alargada, são suprimidas e o corpo físico deixa de existir, para apenas se sentir a comunhão espiritual com o cosmos. Toda a sensação do corpo define esse estado de comunhão ou não. Todo o estado do corpo reflecte o estado do espírito e estados de grande separação entre o corpo e a mente podem mesmo originar doenças. O corpo traduz um estado psicológico e, se determinada experiência é vivida repetidamente, o corpo adapta-se. A postura passa a exprimir os sentimentos interiores e o estado interno em que se vive.

Para Paulson (1995), por exemplo, existem vários tipos de corpos ou áuras, caracterizados pela maior sensibilidade em determinados pontos reflexos que têm uma correspondência com determinadas características psicológicas ou emocionais. Esses diferentes tipos de corpos representam também a evolução pessoal, em termos de consciência. Todos nós os temos, mas podem estar mais ou menos desenvolvidos.


FIG. 1 Adaptado de Paulson (1995)


FIG. 2 e 3 -  Paulson (1995)

Segundo Paulson, os bloqueios de energia significam atitudes ou sentimentos recalcados, cicatrizes emocionais ou mentais profundas ou posturas corporais incorrectas que se centram em determinado chakra, impedindo que a kundalini, centelha divina de força vital, flua de forma natural pelo corpo.

As várias técnicas de abordagem ao corpo e ao espírito, como o yoga, o aikido, o tai chi chuan, a dança e muitas outras, têm a capacidade de tornar conscientes estes bloqueios e possível uma mais profunda união psicossomática, possibilitando um comportamento evolutivo que, se disperso por toda a humanidade, poderia significar uma vida na terra mais saudável, pacífico e espiritual, um verdadeiro céu na terra.

A consciência cósmica, ou a consciência alargada, evolui quando a humanidade atinge certos níveis de compreensão homogénea. Os preconceitos ou comportamentos inadequados, como a preguiça, a raiva, o ciúme, bloqueiam o potencial cerebral e adiam a evolução.

Devemos ter consciência de que, se o cérebro humano evoluíu de forma fantástica ao longo de todos estes milhões de anos, ele continua em evolução e poderá evoluir muito mais! Mas isso implica uma profunda reflexão por parte da humanidade e uma tomada de consciência sobre os padrões comportamentais errados que temos adoptado contra nós próprios e contra a natureza, da qual somos parte integrante.

Se despertarmos a nossa consciência para esse facto, ficaremos surpreendidos com o que o futuro nos poderá reservar. Para alguns, esse desenvolvimento é já antevisto.

Michael Murphy [12] distinguiu doze atributos que caracterizam este nível emergente de desenvolvimento:

·                                      Percepções extraordinárias, apreensão da beleza sobrenatural dos objectos familiares, clarividência voluntária e contacto com entidades ou acontecimentos que são inacessíveis aos sentidos normais.

·                                      Uma consciência somática e uma auto-regulação excepcionais.

·                                      Extraordinárias capacidades de comunicar.

·                                      Vitalidade superabundante.

·                                      Extraordinárias capacidades de movimento.

·                                      Extraordinárias capacidades de alterar o ambiente.

·                                      Alegria que existe por si mesma.

·                                      Ideias intelectuais fervilhantes.

·                                      Vontade supra-normal

·                                      Personalidade que simultaneamente transcende e preenche a nossa noção comum do eu, ao mesmo tempo que revela a nossa unidade fundamental com os outros.

·                                      Amor que revela uma unidade fundamental.

·                                      Alterações nas estruturas corporais, dos estados e dos processos que servem de base às experiências e capacidades acima referidas

Paulson refere o desenvolvimento de uma quarta camada no nosso cérebro, a acrescentar às já existentes e derivadas das nossas constantes adaptações ao meio ambiente e representativas das nossas constantes evoluções. Esse quarto cérebro está situado exactamente no local em que António Damásio identificou a área cerebral para a emoção e para a nossa relação com os outros e com o envolvimento. A emoção é o instrumento de comunicação entre a nossa consciência e o mundo.

A emoção é a combinação de um processo avaliatório mental, simples ou complexo, com respostas disposicionais a esse processo, na sua maioria dirigidas ao corpo propriamente dito, resultando num estado emocional do corpo, mas também dirigidas ao próprio cérebro (núcleos neurotransmissores do tronco cerebral), resultando em alterações mentais adicionais. [13]

ABREU, José Luís Pio. (1997). Introdução à Psicopatologia Compreensiva. Capítulo 3: O sujeito como objecto significativo. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

DAMÁSIO, António R. (2000). O Erro de Descartes. Emoção, Razão e Cérebro Humano. Mem-Martins: Publicações Europa-América.

DAMÁSIO, António R. (2000). O Sentimento de Si. O Corpo, a Emoção e a Neurobiologia da Consciência. Mem-Martins; Publicações Europa-América.

FONSECA, Vítor da. (1989). Desenvolvimento Humano. Da Filogénese à Ontogénese da Motricidade. Lisboa: Editorial Notícias.

McKENNA, Terence. (1998). O Pão dos Deuses. Em Busca da Árvore do Conhecimento Original. Porto: Via Optima.

PAULSON, Genevieve Lewis. (1995). A Kundalini e os Sete Chakras. Guia Práctico da Energia Evolutiva. Lisboa: Editorial Estampa.

REDFIELD, James. (1997) A Profecia Celestina. Lisboa: Editorial Notícias.

REDFIELD, James; ADRIENNE, Carol. (1995). A Profecia Celestina, Um Guia Experimental. Lisboa: Editorial Notícias.

[1] Fonseca, 1989, p.62.

[2] Ibid., p.85.

[3] McKenna, 1998, p.19.

[4] Charles J. Lumsden e Edward O. Wilson, Promethean Fire: Reflections on the Origin of Mind (Cambridge, Massachussets: Harvard University Press, 1983), p.12, in McKenna, 1998, p.20.

[5] McKenna, 1998, p.20.

[6] Ibid., p.xvii-xviii.

[7] Redfield e Adrienne, 1995, p.74-76.

[8] Damásio, O Sentimento de Si, p.36.

[9] Huxley, The Doors of Perception, in McKenna, p.42.

[10] Redfield, 1997, p.187.

[11] Paramahansa Yogananda, Autobiography of a Yogi, in Redfield e Adrienne, 1995, p.133.

[12] Murphy, The Future of the Body, in Redfield e Adrienne, 1995, p.254.

[13] Damásio, O Erro de Descartes, p.153.

 
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