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Ciências Sociais - Psicologia

ANÁLISE ESTRUTURAL
- Aproximação Teórica By Charlie e Maria Manuel M. V.

1 - Prefácio - A mistificação da realidade

1 - PREFÁCIO - A MISTIFICAÇÃO DA REALIDADE

O essencial da realidade é o sentido. Para nós o que não tem sentido não é real. As parcelas de realidades só vivem na medida em que participam de um sentido universal. Exprimem-no velhas cosmogonias quando sentenciam que no "principio era o verbo". Para nós só o que tem nome existe.

 Nomear uma coisa equivale a englobá-la num sentido universal.

Uma palavra isolada, peça de mosaico, é produto recente e resultado já da técnica.

A palavra primitiva era divagação, à volta da luz, um grande todo universal. Na sua acepção corrente, rudimento de antiga e universal mitologia.

Daqui a tendência que mostra em regenerar-se, repelir, completar-se para regressar ao sentido inteiro. A vida da palavra.

 A vida da palavra é tender para variavéis de combinações como pedaços do corpo da serpente lendária que se procuram, retalhados, no meio das trevas.

Este organismo complexo foi rasgado em vocábulos solitários, silabas, discursos quotidianos; e utilizado sob esta forma, fez-se instrumento de comunicação.

A vida, o desenvolvimento do verbo, foram arrastados ao caminho utilitário, submetido a regras estranhas. Mas dá-se uma regressão mal as exigências da prática sofrem um abrandamento, mal a palavra, liberta daquilo que a constrange, é abandonada a si própria e restabelecida nas suas próprias leis: tende assim a completar-se, a reencontrar antigos laços, o seu sentido, o seu primordial estádio na pátria de origem das palavras.

 Só então nasce a poesia.

A poesia é um curto-circuito de sentido entre todas as palavras, fluxo inesperado de mitos primitivos.

Utilizando as palavras correntes esquecemos que são fragmentos de histórias antigas e eternas que estamos como os bárbaros a construir a casa com destroços das estátuas dos deuses.

 Os nossos termos e os nossos conceitos mais concretos são seus velhos derivados.

Nas nossas ideias nem um só atomo deixará de ser descendente deles, uma mitologia transformada, estropia alterada. A mais primitiva das funções do espírito é criar contos, "histórias".

 A ciência sempre foi buscar a sua força motriz à convicção de que pode encontrar, depois de muitos esforços e no cimo dos seus andaimes artificiais, o derradeiro sentido do mundo que ela busca. Mas os elementos que utiliza já serviram e provêm de antigas histórias desmontadas.

 A poesia reconhece o sentido perdido, restitui as palavras ao seu lugar, liga-as de acordo com alguns significados.

Manejado por um poeta, o verbo retoma consciência de si próprio, do seu sentido primeiro se assim podemos dizê-lo, vai desabrochar espontaneamente e de acordo com leis próprias, recuperar a sua integridade.

 E aqui está o motivo porque há-de ser toda a poesia uma criação mitológica e tende a recriar os mitos do mundo. A mistificação do mundo ainda não terminou.

 O seu processo só foi abandonado por a ciência se ter desenvolvido, foi empurrado a uma via lateral onde vegeta com o sentido totalmente transviado.

E a ciência, também ela, não passa de um esforço para construir o mito do mundo, pois o próprio mito está contido nos elementos que utiliza, e não podemos ultrapassar o mito

A poesia apanha o sentido do mundo por dedução e antecipação, a partir de grandes atalhos e audaciosas aproximações. A ciência visa o mesmo objectivo metódicamente e pela indução, levando em conta todo o material da experiência.

 No fundo ambas procuram o mesmo. Infatigável, o espirito humano acrescenta à vida as suas glosas os mitos infatigável, procura "conferir um sentido" à realidade.

O sentido é que leva os homens ao processo da realidade. É um dado absoluto, impossivel de deduzir de outros dados.

 Conferir ao mundo um sentido é função indissociável da palavra. A palavra é orgão metafísico do homem.

 Com o tempo a palavra fica congelada, deixa de veicular novos sentidos.

 O poeta confere às palavras a sua virtude de corpo condutor criando acumulações onde nascem tensões novas.

 Os símbolos matemáticos são um alargamento da palavra a novos domínios. E também a pintura é um derivado do verbo, derivado que ainda não era sinal, mas apenas história, mito, sentido.

Em geral considera-se a palavra como sombra da realidade, como reflexo. Mais justo, porém é dizer o contrário! A realidade é uma sombra da palavra. No fundo a Filosofia é Filosofia, estudo profundo e criador do verbo."

Bruno Schuzz, Tratado dos Manequins ou o segundoGénesis, pág. 5, 6 e 7, Editora & ETC., Série E

2 - CONTRIBUIÇÃO EPISTEMOLÓGICA PARA O ESTUDO DAS INTER-RELACÕES ESTRUTURAIS / FUNCIONAIS

"Inevitalvelmente chegará o dia em que a análise estrutural passará para a categoria de linguagem-OBJECTO e será compreendida num sistema superior que, por sua vez, a explicará...

Existe aí uma necessidade que o estruturalismo tenta precisamente compreender, ou seja, falar: o semiólogo é aquele que exprime a sua futura morte nos próprios termos em que nomeou e compreendeu o mundo. N (Roland Barthes in "Systéme de la Mode", Seuil, 1967)

A cibernética refere-se ao estudo de sistemas de qualquer natureza, susceptíveis de receber, guardar, explorar informações e usá-las com a finalidade de controle e ajustamento (auto-regulações cibernéticas).

Portanto, as máquinas cibernéticas representam imagens matemáticas tidas como hipóteses para as estruturas internas dos objectos em estudo, ou seja, um sistema abstracto e simbólico usado como modelo ideal do objecto estudado.

Este paradigma deverá ser coadjuvado por uma análise funcional pois um conjunto de elementos (estrutura) só tem razão de existirse serviu ou serve para alguma função. Na relação terapeuta-paciente a linguagem é de uma importância primordial e como a linguagem é um sistema, logo para a conhecer deve-se,para além de se fazer análises estruturais (parcialmente informativas), passar a estudar as relações entre funções e estruturas, ou seja, criar conceitos de significado e função.

Qualquer estrutura deve portanto ser definida em termos cibernéticos através dos seguintes pontos:

1. Sortimento de elementos básicos, com os quais são construídas as estruturas especificas.

2. Operações necessárias pare a construção dessas estruturas, utilizando-se os elementos básicos.

3. Diagramas ou descrições estruturais das estruturas construf das pare depots serem relacionadas com as funções pare se poder explicar os significados.

Esta perspectiva epistemológica integra dois níveis:
I - Diagrama descritivo das estruturas do real a observar, e definição das operações de construção e elementos básicos (pois a estrutura não pode ser dissociada do seu funcionamento e génese).

II - Relacionar as estruturas com as funções pare encontrar as inter-acções transformadoras (já que um sistema é constítuido por várias sub-estruturas).

As inter-acções transformadoras são um sistema inter-relacional, que modifica desde o principio uma sub-estrutura, e ao mesmo tempo explica as variações do todo (porque as estruturas consideradas são abertas a trocas e imbuídas de significações, embora sejam um sistema fechado com capacidades de auto-regulação e de totalidade).

NOTA: Com o diagrama seguinte tentamos, sinopticamente, apresentar as inter-acções funcionais e estruturais do sujeito psicológico com a super-estrutura linguística, cerne do problema analítico gerado entre dois seres com significações distintas do Eu e do Outro: o terapeuta e o paciente.
Isto porque a SOMA particular das sues experiências vivenciais formam um TODO único e indecomponível. Se as funções estiverem pré-estabelecidas por um inconsciente social que desempenha o paper de Super Ego , qual a origem das estruturas?



2- PERSPECTIVA ESTRUTURAL DO DESENVOLVIMENTO COGNITIVO AFECTIVO E SOCIAL

A ligação possível entre a ontogénese e o estruturalismo observa-se, hoje em dia, em domínios que dificilmente imaginaríamos, ou seja, no domínio da afectividade e do simbolismo inconsciente.

Bally que se ocupou do estudo do que ele denominou de "linguagem afectiva" (cuja função é reforçar a expressividade que se usa continuamente na linguagem corrente) mostrou sobretudo nela uma desintegração das estruturas normais da língua.

Pelo contrário, podemos perguntar se a afectividade não possui a sua própria linguagem, hipótese que sobre a influência de Bleuler e Jung, Freud defendeu finalmente, depois de querer explicar o simbolismo através de um jogo de disfarces.

 Só Jung via nos simbolos "arquétipos" hereditários enquanto Freud procurava, com razão, a sua fonte na ontogénese individual.

Com Freud, o homem deixou de ser o centro de si mesmo (que nem sempre existe, é apenas um lugar vazio) e aprendeu que ele próprio é constituido por uma estrutura: a estrutura da linguagem.

 O inconsciente é irredutivel à consciência e é caracterizado por uma independência em relação ao tempo real e às categorias da razão (coerência, não contradição, etc.). O inconsciente é portanto, a partir de Freud, já uma cadeia de significantes, que algures se repete e insiste, para interferir nos cortes que lhe oferece o discurso efectivo.

Lévi-Strauss considera que os fenómenos fundamentais da vida humana são determinados por leis de actividades inconscientes e considera portanto que o inconsciente é um sistema simbólico.

Esta é também a tese que Lacan defende. Segundo Lacan, existe um formalismo que domina os comportamentos humanos e se realiza neles sem que eles o saibam, a ordem do simbólico não pode ser concebida como constituída pelo homem, mas sim como a ordem que o constitui.

Por conseguinte não é o mundo que nos ensina mas a linguagem e se nos lembrarmos da experiência de conservação dos líquidos de Piaget, não é a repetição da experiência que muda a opinião da criança que erra, mas sim a descrição linguística da experiência que, dando origem a afirmações contraditórias, permite à criança compreender o erro.

Contudo de modo algum ne pode confundir a perspectiva de Lacan com qualquer hipótese idealista e para isso recordemos a tese de Saussure de que a linguagem não é uma substância mas uma forma.

Para Lacan, materialista rigoroso, a ordem simbólica (a "razão natural" de Lévi-Strauss), não consiste em conteúdos, mas em formas significantes inteiramente vazias.

Esta atitude não é de modo nenhum teológica, o que está em causa é o problema da origem e sobretudo o da origem da linguagem. Quando Lacan afirma que o homem fala, pois, o simbolo o fez Homem, indica-nos o nó da questão.

A passagem da existência animal para a existência humana fez-se pela instauração da ordem simbólica e esta ordem simbólica é formalmente igual á ordem da linguagem.

 Vejamos os momentos essenciais da passagem.

Em primeiro lugar a relação imaginária, a realidade especulativa da relação entre a mãe e a criança, a fusão entre sujeito e objecto, entre o Eu e o Tu.
A descoberta capital de Lacan é o estádio do espelho entre os seis e os dezoito meses. A criança incapaz de se dominar como organismo autónomo, ao olhar para o espelho (ou para o Outro), vê nele a unidade fulgurante da sua imagem, a presença plena do seu Eu.

Em segundo lugar, temos o momento simbólico em que se institui a estrutura edipiana. O Pai é o outro que intervem na relação especulativa e aí introduz a ordem simbólica.

É ao perceber que o Tu que para ele é o pai (ou a mãe), é um Eu na comunicação com a mãe, tal como a mãe é um "eu" quando se dirige ao pai, e, portanto que o "eu" e o "tu" são permutáveis, são relações e não termos que o sujeito entra no circuito da troca.

Ora isto supõe que o sujeito se tenha constítuido como "ele".

Situada nesta posição a criança é excluída da comunicação ao mesmo tempo que é integrada nela. Isto supõe para ela a passagem por uma primeira morte: a experiência do nada.

Portanto, a passagem do reino animal ao reino humano, é a passagem da Natureza à Cultura produzida pela instauração da lei que é a proibição do incesto. O objectivo da proibição é evitar a coincidência entre as relações de parentesco e as relações de aliança.

 Sem esta distinção seria impossível a cada um de nós saber quem era e qual a sua posição em relação aos outros, diluir-nos-‑íamos na promiscuidade total.

Por conseguinte, a sociedade tem uma origem simbólica.

 Proibindo o incesto, o Pai instaura a Lei e a Lei é a ordem da linguagem que vai constituir o sujeito. Daqui surge a importância do nome como lugar em que cada um de nós se vai inserir e encontrar.

O complexo de Édipo, diz Lacan, na medida em que é reconhecido pare cobrir com a sua significação todo o campo da nossa experiência serve para marcar os limites que a psicanálise atribui à subjectividade, isto é, o que o sujeito pode conhecer da sua participação inconsciente nos movimentos das estruturas complexas da aliança, verificando os efeitos simbó1icos na sua existência, do movimento tangencial em direcção ao incesto.

A Lei Primordial, que é a que regula as leis da aliança, faz-se conhecer como idêntica à ordem da linguagem, porque nenhum poder sem as denominações de parentesco seria capaz de instituir os tabús que tecem através das geracões o fio das linhagens.

E é precisamente a confusão das gerações que quer na Biblia como em todas as leis tradicionais, é amaldiçoado como abominação do Verbo e desolação do pecador. A grande descoberta de Freud é a incidência na Natureza do Homem, das suas relações com o simbólico.

 E se a ordem simbólica é constituida pelo Outro (o terceiro, o Pai, a Lei) compreende-se a fórmula central de Lacan: o Inconsciente é o discurso do Outro.

Podemos, portanto, dizer que a exterioridade do simbólico em relação ao Homem, constitui a própria noção de inconsciente e esse é o grande escandâlo da sexualidade Freudiana, o seu carácter intelectual, o inconsciente não sendo o primordial nem o instintivo, de elementar só conhece os elementos do significante.

Para Lacan, a relação entre inconsciente e linguagem é absoluta, o momento em que o desejo se humaniza é aquele em que a criança nasce para a linguagem, porque a palavra mata o objecto.

A palavra não nos dá a presença do objecto mas a ausência dele. Para descrever uma flor, cada palavra que associamos à precedente revela-nos apenas a ausência do objecto. Mas cada palavra a mais é a permanência itinerante dessa ausência, e, no final, o que nos fica não é a flor mas "l'absence de tous bouquets" (Mallarmé).

É este obiecto elidido pela linguagem que constitui o objecto do desejo. O simbolo manifesta-se primeiro como a morte da coisa e esta morte constitui, no sujeito, a eternização do seu desejo.

Daí a diferença entre necessidade e desejo, a necessidade é algo biológico e o desejo algo de intelectual. A necessidade esgota-se na sua realização, o desejo anuncia na própria morte o seu retorno inevitável. É o desejo que aponta no Homem o que nele há de essencial: a ausência.

O que a análise de Lacan nos ensina é a excentricidade radical do sujeito a si mesmo, que se manifesta na disfuncão entre o sujeito do enunciado e o sujeito que enuncia. O Homem não está no centro de si mesmo, porque o eixo dos significantes não coincide com o eixo dos significados.


3 - CONTRIBUIÇÔES ESTRUTURALISTAS PARA A ANÁLISE PSICOPAPATOLÓGICA

Se considerarmos a psicanálise clássica (ou ortodoxa), verifica-se que ela se caracteriza, na história da psicologia moderna, por dois aspectos que poderão servir de obstáculo ao progresso do conhecimento. Esses aspectos são, em primeiro lugar, a apresentação da teoria como totalitária na psicologia devido aos pressupostos egocêntrico/narcísicos dos conceitos por ela utilizados e, por defensivamente, acusar os que a contrariam de medo face aos seus fantasmas afectivos.

Os próprios clientes enfrentam os perigos de projeccões, por parte do terapeuta, que determina os significantes em função dos significados que ele próprio lhes costuma atribuir.

 Embora Freud tenha alertado para a necessidade da inter-relação psíquica (segundo um aparelho intra-psíquico) e físico (em que o ID encarnava o desejo ainda não-intelectualizado), os psicanalistas apoiam-;se sobretudo numa grelha de conteúdos essencialmente traumáticos sem consideração pelos aspectos fenomenológicos existenciais.

 Mas para que o conhecimento progrida, no sentido do esclarecimento, é necessário que os conceitos, constituintes de qualquer teoria, se baseiem na realidade embora esta seja, muitas vezes, um constructo individualizado porque tendemos a dar significações às coisas e aos seres, de acordo com o nosso Eu (considerando este Eu segundo a perspectiva fenomenológica / existencialista).

Se nos basearmos nos psicológos gestaltistas - como Kohler, Koffka, Wertheimer e Guillaume enter outros, designaremos pela palavra estrutura as configurações naturais do campo perceptivo. Se as formas perceptivas forem consideradas como estruturas de correlação - estruturas objectivas - dotadas de qualidade, os elementos não têm existência independente e cada elemento é função do Todo em que se situa e, só por isso, assume um significado.

 Assim uma estrutura de significação é algo em função do qual um elemento do mundo assume um significado para um sujeito; supõe e implica uma relação essencial e existencial entre o sujeito e o seu Universo. Só a estrutura podeconferir sentido àquilo que estrutura.

O ciúme, por exemplo, é uma estrutura estruturante fruto de um conjunto de atitudes que são a estrutura perceptivo -afectivo -comportamental do sujeito.
No esforço mais elementar para compreender alguém, o passo mais simples e mais imediato - no qual está encerrada toda a psicologia - consiste em compreender de forma sempre aproximativa, o que é que as coisas, os seres, os acontecimentos... significam para Outrém (Roger Mucchielli)

Compreende-se portanto que numa relação terapêutica a preocupação se centre na análise da situação- outra segundo a significação que esta tem para nós. E a tolerância pelo "direito á diferença" na significacão da comunicação decresce conforme o indivíduo observado se aproxima mais da nossa cultura. Será que nos tornámos prisioneiros das significações já que - tal como foi dito - cada ser funciona como um universo fechado quan do comunica com um Outro universo fechado?

A informação tal como vai buscar sentido ao contexto psicossocial também modifica esse contexto.

Um exemplo de opções individuais que constituem um centro activo de difusão de sentidos encontra-se na consciência mórbida, no alienado.

 A sua conduta é, para nós, tão opaca como a sua consciência porque todas as significações do mundo mudaram, para ele, de sentido. Mas o Absurdo, tal como o Enigma, tem um sentido completo mas oculto para todos os não-iniciados.

 A insignificação deixa de existir a partir do momento em que a nossa consciência apercebe o sentido do insignificativo que passa, assim, a ser um significado.

A língua, ao ter um sistema próprio de estruturação da comunicação determina um tipo de consciência colectiva e uma determinada cultura.

Transculturais são os "arquetipos" das situações humanas específicas e fundamentais a que, anteriormente, se dava o nome de "instinto".

Porque a necessidade não tem nunca por objectivo um objecto individualizado mas sim uma categoria de realidades, ao sentir a necessidade o indivíduo define uma categoria activa, em função da qual selecciona os elementos do seu meio ambiente que correspondam à sue necessidade e adopta, em seguida, um esquema de comportamento que o impele ao acto realizador _ no meio ambiente molda‑se de acordo com o ser do organismo. (Goldstein)

O "estado mental" de um sujeito corresponde às significações que esse sujeito atribui ao seu meio ambiente, de tal forma que caracterizar essas significações equivale a caracterizar o estado mental do sujeito.

Cada carácter opera no campo do meio ambiente, em função da sua estrutura e a um nivel não consciente, uma selecção das situações e um reagrupamento das mesmas em conjuntos significativos valorizados ou desvalorizados, e isto em relação permanente com os tipos de comportamento, ou antes, esquemas posturais comportamentais que equivalem às disponibilidades individuals de acção e reacção.

O humor, que deve ser considerado em função dos nossos modelos culturais, é um fenómeno de conteúdo geral caracteristico do estado global da nossa experiência vivida -a que corresponde "uma disposição afectiva fundamental" - assim como à totalidade dos valores especificos que façam parte do nosso mundo.

Na doença mental o humor torna‑se prevalecente, intensificando-se tanto mais, quanto se organize de forma rigida, submergindo todos os meios racionais de apreensão do real, todos os meios criticos intelectuais de rectificação e de controle, impossibilitando assim a adaptação.

Na psicose maníaca, por exemplo, o sujeito transpõe o seu Eu de tal maneira para o exterior que elimina a distância entre o Eu e o não-Eu, tentando misticamente incorporar, ou assimilar, o maior número de emoções disponíveis talvez porque se sinta incapaz de as sentir, de as estruturar e, assim, as situações deixam de ter "diferenças significativas" na expressão de humor.

Na psicose melancólica o sujeito centra o seu pensamento em ideias mórbidas de culpabilidade, de desespero e necessidades de suicídio.

O seu humor depressivo/melancólico corresponde a uma deterioração de todas as significações - unicidade rígida da estrutura.

O exemplo da paranóia : para o pensamento do paranóico o objecto passa a representar um sentido geral porque não se fixa no valor concreto dos objectivos, mais ainda do que o da mania ou o da melancolia, evidencia as noções de sistematização do Universo perceptivo-interpretativo.

Melanie Klein detém a ideia de que a psicose constitui o fundo da afectividade dos homems, porque todos os "universos privados" parecem conter zones significativas, no interior dos quais a existência é tematizada por certezas muitas vezes bizarras.

Assim as atitudes afectivas, de grande importância na psicopatologia, orientam simultaneamente a percepção e a acção, e cada "forma" oferece um certo grau de resistência à sua própria transformação. Uma nova organização estrutural de uma situação é extremamente difícil porque esta está impregnada de outra organização.

NOTA: A evidência da importância do sujeito como bio-fisiológico é tão indiscutível que nos debruçamos - quase exclusivamente - sobre um dos campos não privilegiados em psicopatologia: a afectividade, considerando esta como uma super-estrutura relacional do sistema psíquico/social.


4 - PÓSFÁCIO

"(...) Vi sempre o mundo independente de mim.

Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas,

Mas isso era outro mundo.

Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja.

Acima de tudo o mundo externo!

Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim. (...)"

FERNANDO PESSOA/Poesias de Alvaro de Campos

 
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